Bolsa Família movimenta economia nos interiores, mas impacta mercado de trabalho e requer equilíbrio, avalia economista

Bolsa Família movimenta economia nos interiores, mas impacta mercado de trabalho e requer equilíbrio, avalia economista



De acordo com estudo realizado em julho de 2025, 10 estados possuem mais beneficiários do programa do que trabalhadores com carteira assinada

Por

JC


Publicado em 18/08/2025 às 10:42

Em julho de 2025, dez estados brasileiros registraram mais beneficiários do Bolsa Família do que trabalhadores com carteira assinada. A informação, revelada em estudo publicado pelo portal Poder360, expõe um retrato da desigualdade regional no país.

Para o doutor em Economia, professor titular da UFPE e ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, Jorge Jatobá, o fenômeno deve ser compreendido a partir da função social do programa e de suas implicações no mercado de trabalho.

Embora o panorama tenha melhorado, uma vez que em 2023 eram 13 estados nessa situação, o especialista afirma que as estatísticas ainda refletem as diferenças regionais de renda.

“No Norte e Nordeste, onde há pobreza maior, tem uma estatística diferente daquela do Sul e Sudeste, onde o desenvolvimento econômico é mais acentuado e onde a pobreza é menor”, avaliou o especialista em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta segunda-feira (18).

Ouça a entrevista na íntegra

O economista reconhece, porém, que existe um impacto no mercado de trabalho. “De fato, existe uma concorrência, vamos dizer assim, entre estar no Bolsa Família e estar empregado com uma carteira assinada. A primeira dela é que nem todo mundo que tá Bolsa Família está na população economicamente ativa, na força de trabalho. Tem muita gente que está como inativa, nem buscando trabalho nem está ocupada”.

Ele lembra que empresários, sobretudo no interior, relatam dificuldades para contratar mão de obra formal. “Eu tô acostumado a conversar com empresários, sobretudo na área da do comércio, e eles reclamam permanentemente, sobretudo no interior do Estado da dificuldade de encontrar pessoas que queiram carteira assinada”, apontou.

Cultura do trabalho e novos modelos de ocupação

Apesar disso, Jatobá ressalta que a resistência à carteira assinada não se resume ao programa social, apontando que também há mudanças culturais no mercado de trabalho em que nem toda a população deseja ter carrteira assinada. Segundo ele, a busca por flexibilidade tem levado trabalhadores a rejeitarem vínculos formais.

“É a tendência das pessoas de terem mais flexibilidade no trabalho, definir seu próprio horário, sua própria hierarquia de trabalho, tentar empreender seu próprio negócio e isso faz com que muita gente prefira não ter uma carteira assinada. Porque vai se submeter ao salário mínimo, vai se submeter a horário de trabalho, vai se submeter a uma disciplina de trabalho que ainda não tá preparado”, avaliou.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), lembra o economista, já reflete essa tendência. “O CAGED mostra o crescimento significativo de pessoas que pedem para se desligar e vai depois empreender. E o dos indicadores que se você tem no Brasil e como isso está crescendo, são os MEIs, os micro empreendedores individuais. Isso está crescendo”, analisou Jatobá.

Outro fator, segundo o professor, está na baixa qualificação da mão de obra. “Os empresários reclamam, às vezes, que não tem ou não conseguem encontrar pessoas. Apesar de todos os esforços, o sistema S (…) tem feito um esforço enorme da indústria, do comércio, da agricultura, etc, para qualificar a mão de obra. Mas essas dificuldades permanecem”.

Impacto nas economias locais

Jatobá chama atenção para o efeito macroeconômico do programa, sobretudo no interior do país. “O Bolsa Família tem uma importância muito grande no dinamismo das essas economias municipais. Tem municípios do Nordeste que funcionam fundamentalmente a partir das transferências de renda. Então, a feira, o comércio, tudo depende muito dessas transferências”.

Ele lembra que, após o Bolsa Família, episódios históricos de fome e migração forçada durante secas extremas praticamente desapareceram. “Você não tem aquele movimento enorme de pessoas fugindo com fome para procurar alimentação em outros lugares e migrando para a capital, para a área metropolitana. Isso desapareceu. Então, há um efeito macroeconômico importante nas economias dos municípios”, registrou, destacando o saldo positivo do programa.

“Embora os empresários reclamem disso — e eles têm razão em reclamar, que é uma concorrência —, mas tem uma série de benefícios, inclusive, para o comércio local e para a atividade econômica local que decorre das suas transferências. E não é só do Bolsa Família, é do BPC, é Previdência”, afirmou.

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