Em Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, Josué revelou o que poucos ousavam enxergar: a fome não era simples escassez de alimentos
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Neste setembro, em que lembramos nascimento e falecimento de Josué de Castro (1908-1973), é oportuno revisitar a atualidade de seu pensamento. Em Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, Josué revelou o que poucos ousavam enxergar: a fome não era simples escassez de alimentos, mas resultado de um tecido intrincado de fatores políticos, econômicos, culturais e ambientais.
Sua obra denunciava a arquitetura da injustiça: concentração de terras, monopólios de distribuição e políticas agrícolas excludentes.
Ao articular terra, trabalho, economia e poder, antecipava o que Edgar Morin chamaria de pensamento complexo, a arte de perceber conexões invisíveis sem mutilar a realidade em fragmentos.
Josué foi também pioneiro ao internacionalizar a denúncia contra a fome. Como presidente do Conselho da FAO, em Roma, projetou a voz do Nordeste e do Brasil no mundo, mostrando que a miséria não era destino tropical, mas resultado de escolhas políticas globais.
Sua coragem custou-lhe o exílio, mas lhe assegurou um lugar definitivo entre os grandes pensadores do século XX. Sua vida, marcada pela interseção entre ciência, ética e compromisso social, permanece como referência para todos que acreditam que a pesquisa só tem sentido quando orientada pela justiça.
Esse olhar é ainda mais urgente no século XXI, diante da inteligência artificial. Muitas vezes reduzida a linhas de código, a IA é também produto de contextos sociais, éticos e políticos. Assim como Josué demonstrou que a fome não era destino natural, mas projeto humano, precisamos compreender que a IA não é neutra nem inevitável, pois se molda às escolhas que fazemos ou omitimos.
Se a fome brotava de uma ordem social injusta, a IA pode hoje reproduzir, em novas escalas, desigualdades semelhantes: algoritmos de reconhecimento facial que discriminam corpos negros, sistemas de seleção automatizada que reforçam exclusões históricas, o abismo entre os que detêm o poder tecnológico e os que dele permanecem alijados.
Mas, como lembrava Josué, todo projeto humano pode, e deve, ser reorientado. A questão é: optaremos por uma IA que apenas automatiza a discriminação e consolida privilégios, ou por uma IA que distribui recursos de forma justa e amplia a equidade?
O pensamento complexo nos convoca a superar simplificações binárias, progresso ou catástrofe, humano ou máquina, e a tecer pontes sólidas entre ciência, ética e humanidade.
É nesse espírito que, em Salvador, no Congresso Regional da FESBE, estarei ao lado de Hélder Remígio, biógrafo de Josué, de Ana Elisa Toscano, especialista em Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD), e de Tereza Deiró, da UFBA, para discutir o tema à luz da transdisciplinaridade.
Pois é somente na travessia entre saberes, da biologia à filosofia, da tecnologia à sociologia, que poderemos compreender o legado eterno de Josué e os dilemas éticos da IA.
Revisitar Josué à luz da IA é reconhecer que tecnologia sem responsabilidade social pode aprofundar fissuras da injustiça. Mas é também afirmar, com esperança, que, inspirados por seu legado, podemos orientar o desenvolvimento tecnológico para servir à dignidade humana, à vida plena e à justiça social.
Se a fome foi, para Josué, o espelho cruel das contradições humanas, a IA pode ser, para nós, o espelho de escolhas civilizatórias decisivas. Cabe decidir se refletirá, de forma ampliada, as desigualdades de sempre ou se iluminará novos caminhos de solidariedade, emancipação e futuro compartilhado.
*Raul Manhães de Castro, Médico, Professor Emérito da UFPE e Membro da Academia Pernambucana de Ciências (APC)




