Da previsão de faltas ao apoio ao rastreamento, a IA já melhora resultados na rede municipal, enquanto o cuidado mantém seu centro humano
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A inteligência artificial (IA) vem ganhando espaço em várias áreas, mas na saúde – especialmente no SUS – ela é decisiva. Falamos de um sistema que atende milhões de pessoas, com imensa diversidade social e desafios diários de gestão. Nesse cenário, tecnologia não é luxo: é condição para garantir acesso, qualidade e equidade.
No Recife, referência em inovação, a IA já faz parte da rotina da rede de saúde. A pandemia foi um ponto de virada: para vacinar milhões em pouco tempo, o Conecta Recife foi transformado em um hub de serviços on-line. Hoje, até 50% das consultas na Atenção Básica são agendadas digitalmente. Já as consultas especializadas, exames e cirurgias podem ser confirmados, remarcados ou cancelados pelo WhatsApp.
Isso só foi possível porque o município informatizou 100% das unidades, integrou prontuários da Atenção Básica e Especializada e conectou sistemas de regulação, laboratório, farmácia, vacinação e gestão. O resultado é menos retrabalho, mais transparência e cuidado em rede. Com o Minha Saúde Conectada, trabalhadores e usuários têm acesso ao histórico de atendimento, o que qualifica o acompanhamento e reduz burocracias – liberando tempo para o que importa: olhar, escutar, acolher.
A plataforma Absens é outro exemplo concreto. Com IA para prever faltas (overbooking preditivo) e chatbot para confirmar presença, mais de 200 mil consultas foram reaproveitadas. Em vez de cadeiras vazias, mais gente atendida. A IA também começa a apoiar a estratificação de risco para câncer de mama, usando dados de hemograma para direcionar melhor o rastreamento. E, em parceria com a Vital Strategies, um alerta de risco de violência doméstica foi desenvolvido a partir da análise de prontuários de mulheres, identificando padrões que permitem intervenção mais precoce e proteção mais efetiva.
Tudo isso é novo, e não há algoritmo capaz de prever até onde iremos. Mas uma certeza permanece: a tecnologia não substitui a inteligência humana nem a relação de cuidado. A IA ajuda a interpretar dados, apoiar diagnósticos e organizar o sistema, mas não entende, sozinha, o medo, a dor, o contexto social de cada pessoa.
A escolha que está colocada não é entre “máquinas ou gente”, e sim entre um sistema que afasta o usuário ou que usa a tecnologia para aproximá-lo. Recife tem apostado na segunda via: a transformação digital como aliada da humanização. A IA, aqui, é meio – não fim – para garantir um SUS mais acessível, eficiente e, sobretudo, mais humano.
Luciana Albuquerque é secretária de Saúde do Recife, mestre em Saúde Pública pela Fiocruz e doutora em Saúde Internacional pela Universidade Nova Lisboa.



