Enquanto o brasileiro faz bico para completar a renda, Lula e Flávio oferecem acusações, demagogia com benefícios e nenhuma visão consistente de país.
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A eleição presidencial oferece ao brasileiro duas razões para sentir medo e quase nenhuma para ter esperança. Lula e Flávio Bolsonaro construíram uma disputa na qual o principal argumento de cada candidato é o tamanho do perigo representado pelo adversário. Um pede votos para impedir a volta dos Bolsonaro. O outro pede votos para retirar Lula e o PT do poder. O eleitor procura uma saída para o futuro e encontra duas campanhas inteiramente dedicadas ao passado e ao “terror do outro”.
Lama
A disputa deixou de ser uma comparação entre projetos para se transformar numa competição de rejeições. Lula precisa convencer o país de que Flávio carrega os vícios políticos, familiares e institucionais do bolsonarismo. Flávio precisa reduzir Lula à corrupção, ao aparelhamento do Estado e aos problemas acumulados pelo governo. Nenhum dos dois depende de despertar confiança suficiente para vencer. Basta produzir medo suficiente do outro.
O equilíbrio das pesquisas mostra como essa estratégia funciona. Na simulação de segundo turno da Quaest, Flávio aparece com 42% e Lula com 40%. Mas a proximidade não revela um país dividido entre duas ideias de futuro e sim um eleitorado espremido entre duas rejeições.
A escolha presidencial vai sendo apresentada como uma operação de emergência na qual se vota menos para colocar alguém no poder do que para impedir a chegada do adversário.
Esse modelo interessa aos dois candidatos. Quanto mais degradada estiver a campanha, menor será a cobrança por respostas concretas. Falar sobre desenvolvimento exige metas, prazos, prioridades e explicações sobre onde conseguir dinheiro. Acusar o outro de ser corrupto, autoritário ou incompetente custa bem menos. A lama se for bem espalhada tem a vantagem eleitoral de esconder o vazio.
Renda
O contraste com a vida do brasileiro é brutal. Levantamento recente da Ipsos em dez capitais mostrou que 61% dos entrevistados recorreram a algum trabalho adicional para complementar a renda. Embora 73% tenham escolaridade superior à dos pais, apenas 46% conseguiram ganhar mais do que eles. O brasileiro estudou mais, trabalha mais, e ganha menos.
Há uma humilhação política nessa distância. Milhões de pessoas fazem bicos, vendem produtos, dirigem por aplicativos ou sacrificam o descanso para pagar alimentação, aluguel, transporte e juros. Quando ligam a televisão para saber o que os candidatos pretendem fazer, escutam uma discussão interminável sobre quem roubou mais, quem persegue mais e qual família produziu mais escândalos.
Uma eleição à altura do país precisaria discutir quando foi que trabalhar deixou de ser suficiente para avançar. Precisaria tratar de produtividade, educação básica, qualificação profissional, informalidade, crédito e geração de empregos capazes de sustentar uma família. Lula e Flávio preferem explicar por que o eleitor deve sentir pavor caso o outro vença. O trabalhador tenta sobreviver ao presente enquanto os candidatos brigam pelo passado.
Demagogia
Na ausência de um projeto, sobra a demagogia. O reajuste do Bolsa Família anunciado a 17 dias do primeiro turno resume essa lógica. O piso do benefício passará de R$ 600 para R$ 691 e produzirá uma despesa estimada em aproximadamente R$ 22 bilhões no próximo ano. Depois de sustentar durante boa parte do governo que não havia necessidade de aumento, o Planalto descobriu essa urgência quando a eleição se tornou ameaçadora.
Corrigir o benefício pode ser necessário. Transformar a vulnerabilidade de milhões de famílias em ferramenta de campanha é outra coisa. O governo entrega um aumento imediato, explora politicamente o anúncio e evita explicar como pretende criar condições para que menos brasileiros dependam do programa no futuro. A pobreza deixa de ser uma emergência a superar e passa a ser um ativo eleitoral a administrar.
Flávio tampouco apresenta uma alternativa capaz de romper essa lógica. A oposição critica o uso eleitoral do Bolsa Família, mas sabe que não pode propor sua redução. A tendência é prometer manutenção, ampliação ou algum benefício concorrente. Forma-se um leilão no qual os candidatos disputam a gratidão dos pobres sem enfrentar os mecanismos que os mantêm pobres.
É mais fácil anunciar dinheiro do que explicar como o Brasil aumentará sua produtividade. É mais conveniente entregar um benefício do que melhorar a educação. É eleitoralmente mais seguro tratar o cidadão como dependente do governo do que lhe oferecer condições para depender do próprio trabalho.
País
Enquanto a campanha se ocupa de seus inimigos, a economia perde força. O varejo caiu 0,8% em julho. O crédito continua caro. Famílias endividadas reduzem o consumo e empresários adiam investimentos. O trabalhador procura uma segunda fonte de renda para conseguir pagar despesas que a primeira já não cobre. Mais de 80% dos trabalhadores vivem com até dois salários mínimos.
O brasileiro trabalha muito, ganha pouco e paga caro por quase tudo. Ainda assim, a eleição lhe oferece a humilhação de escolher entre dois candidatos que sabem explicar por que o adversário é desprezível, mas não conseguem dizer com a mesma clareza que país pretendem entregar daqui a quatro anos.



