“Os resultados do governo não viram voto”, diz cientista político sobre estratégia de Lula no 2º turno

“Os resultados do governo não viram voto”, diz cientista político sobre estratégia de Lula no 2º turno

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – Ricardo Stuckert/PR

Informações do JC

O segundo turno da eleição presidencial exigirá uma mudança de estratégia da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na avaliação do cientista político Felipe Ferreira Lima. Em entrevista ao Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta quinta-feira (8), ele apontou erros cometidos pela campanha petista no primeiro turno e vê possibilidade de busca de novos temas, apoios e formas de comunicação para tentar alterar o cenário da disputa.

Para Felipe, a campanha de Lula teria demonstrado excesso de confiança, subestimado a força do adversário e apostado demasiadamente na comparação com o passado. Segundo ele, os resultados apresentados pelo governo não foram suficientes para transformar avaliação de gestão em voto.

“Os resultados do governo não viram voto, isso é determinante”, afirmou.

Na avaliação do cientista político, a campanha também teria repetido estratégias utilizadas em outras eleições de Lula, sem considerar as mudanças no comportamento do eleitorado. Ele citou como exemplos as propagandas com artistas, o apoio do setor cultural e a própria trajetória pessoal do presidente.

“Toda a campanha de Lula, aquilo se faz, é um repeteco desde 1989. Então eles fizeram a campanha replicando o passado quando a política no Brasil já é totalmente diferente”, disse.

Para Felipe, a primeira tarefa da campanha petista deveria ser uma autocrítica sobre os erros do primeiro turno. A partir daí, segundo ele, Lula precisaria apresentar “pautas novas”, “fatos novos” e “apoios novos”.

Abstenção e busca por novos eleitores

A mobilização dos eleitores que não compareceram às urnas também aparece, na avaliação de Felipe, como uma das frentes da campanha para o segundo turno. Ele citou o contingente de 33,4 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno e afirmou que não será suficiente tentar alcançar esse grupo de maneira indistinta.

“Não dá para num tiro curto a gente atingir toda a esfera de uma abstenção. É necessário entender, mapear onde ela foi mais presente e entender as razões pelas quais ela existiu”, afirmou.

O cientista político citou diferentes perfis que podem compor esse eleitorado, como idosos, jovens de 16 e 17 anos, cujo voto é facultativo, e eleitores de diferentes regiões do país. Para ele, a motivação para voltar às urnas dependerá também da forma como a campanha conseguir apresentar a disputa.

Felipe avaliou que eleitores de direita podem se mobilizar diante da possibilidade de retirar o PT do poder, enquanto eleitores de esquerda podem reagir diante da percepção de que conquistas sociais estariam ameaçadas.

Dificuldade de reconstrução de frente política de 2022

Outro obstáculo apontado por Felipe é a dificuldade de reconstruir a frente política que se formou em torno de Lula no segundo turno de 2022. A avaliação foi feita durante uma discussão sobre antigos adversários do PT que declararam apoio ao petista naquele momento, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e economistas identificados com posições liberais.

Para o cientista político, aquele ambiente de unidade não se manteve durante o atual governo.

“A demonstração de unidade de um palanque tal como foi em 22 de frente democrática, de fato, hoje está desintegrado pela forma como foi feita a política do governo Lula durante os quatro anos”, afirmou.

Felipe disse que o problema não se restringe às lideranças que apoiaram Lula em 2022, mas também alcança parte dos eleitores associados a esses grupos. Segundo ele, houve eleitores que chegaram ao primeiro turno sem uma manifestação política clara e que acabaram optando por outro candidato ou não comparecendo às urnas.

Nesse cenário, o cientista político também destacou a capacidade de Flávio Bolsonaro de reunir diferentes setores em torno de sua candidatura.

“Ele tem conseguido, mesmo diante da fragilidade do seu perfil, do seu teto de vidro que a gente acabou de colocar aqui, aglutinar pessoas”, afirmou.

Para Felipe, os apoios de governadores e senadores no segundo turno também terão importância, embora não necessariamente sejam públicos. Ele observou que alguns desses políticos têm trajetórias construídas principalmente nos próprios estados e podem avaliar os efeitos de um posicionamento nacional sobre suas alianças locais.

“O silêncio deles muitas vezes pode ser estratégico também internamente nos estados”, disse.

Sentimento de mudança

Outro elemento apontado na entrevista foi o sentimento de mudança identificado no primeiro turno. Para Felipe, a campanha de Lula não terá tempo suficiente para eliminar esse sentimento, mas poderá tentar alterar a maneira como ele é percebido pelo eleitor.

Na avaliação dele, o caminho seria apresentar a mudança representada pelo adversário como um risco.

“É muito mais plausível que a campanha de Lula, hoje, trabalhe em cima do jogo do medo, da rejeição, não para transformar o sentimento de mudança, porque não dá tempo, mas para tornar esse sentimento de mudança um sentimento de risco”, explicou.

Felipe considera que a concentração da disputa em apenas dois candidatos muda também a dinâmica dos ataques. No primeiro turno, segundo ele, a presença de candidaturas de terceira via pulverizou parte desse confronto. Com a disputa reduzida a Lula e Flávio Bolsonaro, a rejeição de cada candidato tende a ganhar espaço na campanha.

Economia no centro da disputa

A economia é outro tema que, segundo Felipe, foi subestimado na campanha de Lula. Ele afirmou que os indicadores macroeconômicos positivos não necessariamente correspondem à percepção que o eleitor tem da própria situação financeira.

“A autossuficiência da campanha de Lula acreditou muito nesses números macro. ‘A economia está bem pelo PIB’, ‘a economia está bem porque nós temos tantos de carteira assinada’. Eles se colocaram como definidores dos números macro na vida do brasileiro ao ponto de esquecerem um pouco de tratar da economia”, afirmou.

Na avaliação do cientista político, Flávio Bolsonaro teria percebido essa diferença e utilizado a percepção sobre a economia como um dos pontos centrais de sua campanha.

Para Felipe, entretanto, o tema não pertence exclusivamente ao discurso de oposição. Lula também poderá recorrer à memória econômica do governo de Jair Bolsonaro, mencionando a pandemia, a atuação de Paulo Guedes e medidas de ajuste adotadas naquele período.

“A economia não é só o momento. A economia tem uma memória de passado também”, afirmou.

Possibilidade de “cisne negro” no segundo turno

Apesar dos obstáculos apontados para a campanha de Lula, Felipe afirmou que considera o cenário aberto e avaliou que o curto intervalo entre os dois turnos pode favorecer mudanças na disputa.

Segundo ele, diante de uma diferença relativamente pequena, um acontecimento inesperado pode alterar o comportamento do eleitorado. Na linguagem utilizada pelo cientista político, trata-se do chamado “cisne negro”.

“É o que a gente chama na ciência política de cisne negro. Pode aparecer aí, diante de um teto de vidro tão avantajado, digamos assim, do Flávio, esse cisne negro que pode ser procurado o tempo todo”, afirmou.

Para Felipe, portanto, a campanha de Lula terá de combinar a tentativa de mobilizar os eleitores que não foram às urnas com uma mudança na comunicação, a apresentação de novos temas e apoios e a exploração da rejeição ao adversário. Ao mesmo tempo, a campanha de Flávio Bolsonaro terá de lidar com a própria rejeição e buscar manter a mobilização construída no primeiro turno.

“O tiro é curto. Existem chances, tanto de permanência do quadro que está aí, quanto de virada”, afirmou.

Link da fonte aqui!

Veja também: