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O primeiro gole de bebida alcoólica pode acontecer na infância, na juventude ou já na vida adulta, seja por influência familiar, externa ou vontade própria. Em muitos casos, o caminho que se segue é o mesmo: perdas sucessivas, rupturas familiares e o rompimento com a própria identidade.
Em relatos marcados por sofrimento e reconstrução, pessoas que enfrentam o alcoolismo contaram ao Jornal do Commercio como chegaram ao limite e encontraram no Alcoólicos Anônimos (AA) a possibilidade de recomeço.
O alcoolismo não tem idade
José tinha apenas 12 anos quando se embriagou pela primeira vez. Ele voltava da escola com colegas quando pararam em um bar. “Eu tomei umas batidas, tive um apagamento e sumi. Só vim dar por mim dois dias depois”, contou à reportagem. A partir dali, diz que nunca mais teve juventude. “Só tive dois tempos, criança e adulto. A minha juventude foi destruída pelo álcool”.
Os anos sob o vício foram marcados por muitos episódios de sofrimento. Quando a primeira filha nasceu, José passou cinco dias bebendo para comemorar, longe de casa. Nesse meio tempo, a criança faleceu. Seu pai, que sequer sabia que ele tinha uma família, o encontrou embriagado e disparou “acorde, ‘caba safado’. Vá fazer o velório da sua filha”, relembra com dor.
As histórias tristes não pararam por aí. Mais tarde, ainda afundado no álcool, foi demitido do emprego e ao chegar em casa descobriu que sua esposa havia recebido da empresa uma passagem para ir embora. Aos 43 anos, desacreditado e desrespeitado pela família, chegou ao AA e nunca mais bebeu. Hoje, soma 33 anos sem beber.
Livreto informativo sobre alcoolismo na juventude – Eduarda Nóbrega/JC Imagem
Pedro também começou a beber ainda menor de idade. A dependência alcoólica cruzou-se com a de outras drogas, que ele também começou a traficar. No mundo do crime, perdeu até o próprio nome: “eu vivia à margem da sociedade”.
Ele chegou a ser internado diversas vezes em hospitais psiquiátricos. “Me levaram muitas vezes internado como doido, sem ser doido. O doido era a cachaça, a maconha e muita droga”. Recebeu tratamentos torturantes, como sessões de eletrochoque, mas nada adiantava.
Hoje, após 38 anos de sobriedade graças ao AA, se sente outra pessoa. “Sou casado, tenho casas, carros e moto. Durmo em um colchão de R$10 mil. A gratidão é primeiramente a Deus, mas segundo a esse pessoal que me aceitou sem julgamentos da maneira que eu cheguei”.
Por que o alcoolismo não tem um perfil?
A reportagem do JC conversou com a psicóloga Talita Silva, amiga de Alcoólicos Anônimos há mais de 10 anos. Ela explica que “não há um fator específico que faça o alcoolismo surgir. Mas é entendido que o fenômeno envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais”.
E a doença progride com o aumento da tolerância ao álcool pelo organismo de quem bebe. “E isso aumenta a possibilidade de desenvolver um transtorno alcoolista”, diz. Mas faz questão de frisar que o alcoolismo é totalmente recuperável.
Talita compara a atuação do grupo Alcoólicos Anônimos com a psicologia no que diz respeito ao acolhimento e à cura pela fala. “Ao chegar no AA a pessoa começa a se abrir pro mundo e sair do seu isolamento“.
O processo de recuperação passa pela reconstrução da identidade e pela reintegração social dentro do grupo, mas deve ser contínuo. “A cura é a cada 24 horas que não se bebe. Chegou um novo dia, o processo se reinicia”, explica.
Sede administrativa do grupo Alcoólicos Anônimos (AA) no Recife – Eduarda Nóbrega/JC Imagem
Alcoolismo não tem gênero
A profissional aproveita para destacar um ponto pouco discutido sobre o alcoolismo: a diferença de gênero. A doença também atravessa trajetórias de mulheres, que além do sofrimento pelo vício, são atingidas ainda pela intolerância da sociedade.
Maria cresceu ouvindo falar sobre recuperação de dependentes químicos por influência da mãe, que trabalhava em um hospital psiquiátrico. Apesar disso, não imaginava que também enfrentaria a doença.
Seu primeiro contato com o álcool aconteceu de forma social, em família, restrito à algumas cervejas aos fins de semana. Ela não percebeu o agravamento progressivo da dependência até que chegasse à perda total do controle. “Eu perdi profissão, perdi meu casamento, abandonei a faculdade. Fui me afundando no álcool”, relata.
O ponto de virada aconteceu quando passou a perceber que tinha apagamentos de memória e associou o quadro ao alcoolismo. Aos 41 anos, buscou ajuda no AA. Hoje, soma 23 anos de sobriedade ininterrupta e atua na irmandade. “Sou uma profissional autônoma, independente e segura”, se orgulha em dizer.
Maria, membro de Alcoólicos Anônimos (AA) – Eduarda Nóbrega/JC Imagem
Já Lima, sua colega de AA, também sofreu com a dependência alcoólica. No seu primeiro casamento, sofria violência doméstica pelo marido alcoolista. “Eu fui espancada durante 8 anos. Ele me jogava para fora de casa com as crianças no braço”, conta.
O consumo próprio começou por volta dos 20 anos e se intensificou nesse contexto. A vida entrou em colapso com perda de emprego, moradia e enfrentamento da fome. O acesso ao AA não foi imediato, pois sentia que o grupo era muito fechado. Foi por meio do seu atual esposo que ela começou a frequentar e iniciou o processo de recuperação.
Lima está há 29 anos sem beber e mantendo um vínculo ativo na irmandade. “Eu já perdi um filho para o mundo das drogas, mas nem isso me fez voltar para o primeiro gole, por que sei que não vai resolver”.
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