Pesquisa do Simpere mapeia fatores de adoecimento entre professores da rede municipal do Recife

Pesquisa do Simpere mapeia fatores de adoecimento entre professores da rede municipal do Recife


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Quase 500 professores da rede municipal do Recife foram ouvidos em um levantamento que buscou traçar um primeiro retrato dos fatores relacionados ao adoecimento dos profissionais da educação e da percepção dos docentes sobre a assistência oferecida pela rede nesses casos.

Ansiedade, estresse e depressão estão entre os diagnósticos mais mencionados pelos participantes. O levantamento foi feito pelo Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife (Simpere).

Segundo a diretora do Simpere e coordenadora da pesquisa, Eva Azevedo, desde o ano passado a entidade passou a integrar o Coletivo de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), criado com objetivo de debater e construir políticas para garantir o bem-estar e a qualidade de vida dos profissionais da rede pública de ensino.

Como parte desse movimento, veio a necessidade de realizar um primeiro mapeamento que servirá de subsídio para a formulação de políticas públicas e ações de apoio. 

“Nós temos em Recife algumas situações que fortalecem essa temática, pois temos muitos professores readaptados, muitos professores novos se afastando, muitas licenças. Então tivemos a ideia de tentar ouvir a rede municipal. Essa é uma pesquisa de caráter exploratório, em que os professores responderam de forma voluntária”, explicou a dirigente, em entrevista à coluna Enem e Educação.

“A ideia era mapear e bater realmente com os dados a nível nacional, se de fato o Recife também estava dentro dessa [realidade]. A gente percebia esse cenário de adoecimento, mas ainda não tínhamos nada concreto para comprovar. Então pesquisamos por gênero, por local de trabalho, as RPAs (Regiões Político-Administrativas), que são seis, a idade dos profissionais e o tempo que ingressou na rede”, completou.

Perfil dos respondentes

A pesquisa, à qual a coluna Enem e Educação teve acesso, reuniu 478 respostas válidas. A idade média dos participantes foi de aproximadamente 45,8 anos, com maior concentração nas faixas de 41 a 50 anos e 51 a 60 anos. Houve predominância de mulheres entre os respondentes, refletindo a composição majoritariamente feminina da força de trabalho na educação.

A maioria dos participantes também possui um período significativo de atuação na rede municipal, com uma parcela expressiva relatando mais de dez anos de experiência profissional.

Diagnósticos mencionados

Entre os diagnósticos mais mencionados pelos participantes, ansiedade aparece em primeiro lugar, com 296 menções, seguida por estresse (235), depressão (189), burnout (124) e outros diagnósticos (124).

Entre os entrevistados que relataram algum diagnóstico, 78,9% afirmaram acreditar que ele está diretamente relacionado ao ambiente de trabalho. Outros 17,2% disseram não ter certeza sobre essa relação, enquanto 3,8% afirmaram não haver ligação.

Já entre os fatores mais mencionados pelos professores como relacionados ao adoecimento estão a falta de estrutura adequada no espaço de trabalho, com 156 menções, seguida por abuso de poder e assédio (92), salas lotadas (74) e sobrecarga de trabalho (73).

Também foram citados imposições, metas e cobranças excessivas relacionadas a projetos, com 39 menções, além da relação com as famílias, com 12.

A pesquisa também investigou a assistência recebida pelos profissionais durante o período de afastamento. Entre as respostas, 227 participantes afirmaram não ter recebido assistência, enquanto 12 disseram ter sido atendidos pelo programa Bem-Estar. Outras 239 respostas foram classificadas como “outros”, reunindo manifestações variadas que indicavam falta de apoio.

Levantamento deverá ser ampliado

O Simpere pretende ampliar a pesquisa com um novo formulário e maior participação dos docentes, além de realizar uma série de ações para dialogar com os profissionais de ensino e buscar soluções junto à Secretaria de Educação do Recife.

Segundo Eva Azevedo, serão realizados quatro encontros presenciais, nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, nas RPAs da cidade, para tratar de diferentes temáticas, entre elas a questão da violência.

“Agora, esse relatório foi importante também, e ele está saindo agora, esse qualitativo, que é bem mais minucioso, para que a gente tenha também o respaldo de dialogar com a prefeitura, né? Um documento que valida toda a situação do professor vindo pela ótica do professor de sala de aula, que está nas escolas”, disse a professora.

A coordenadora do Simpere, Jaqueline Dornelas, também conversou com a coluna Enem e Educação e afirmou que o sindicato tem dialogado com a administração municipal sobre o adoecimento sistêmico dos docentes.

Na última quinta-feira (6), foi realizada uma reunião na qual foi apontada a necessidade de melhorar o sistema de educação do Recife, com melhores condições de trabalho, valorização salarial, organização da categoria no local de trabalho, entre outras ações.

“O maior enfrentamento é a categoria começar a debater isso, para não pensar que isso é um problema individual dela”, disse. “Os professores têm realizado múltiplas funções dentro da escola, da creche, e isso tem levado a uma sobrecarga mental, sabe? É uma responsabilidade mental que não condiz com a sua capacidade de tempo, de dia. É como se as tarefas colocadas pelo sistema de ensino, e no Recife não é diferente, não pudessem ser cumpridas no horário que é possível”, avaliou a dirigente.

Jaqueline também informou que, na próxima terça-feira (11), será realizada uma plenária com representantes das unidades de ensino para discutir a pesquisa e mobilizar a categoria. A proposta é encaminhar um material sobre o tema e orientar os professores a paralisarem as duas últimas aulas na próxima quinta-feira (13) para debater os resultados do levantamento e o documento elaborado pelo sindicato.

Na semana seguinte, no dia 20 de agosto, o Simpere irá lançar a campanha “Cuidar de si e de nós também é luta”, por meio de um seminário que será realizado no Bloco G-2 da UNICAP (R. do Príncipe, 526 – Boa Vista, Recife – PE, 50050-900) das 8h às 17h. 

Cobranças e denúncias

Em 2020, a Secretaria de Educação do Recife (Seduc) lançou o Programa Bem-Estar, criado para promover a saúde integral, a qualidade de vida e a prevenção de agravos entre os profissionais da rede municipal de ensino. Segundo a gestão municipal, a iniciativa atua prioritariamente na prevenção e na promoção do bem-estar, sem substituir o atendimento médico ou psicológico especializado oferecido pela rede de saúde.

No entanto, o Simpere afirma que o programa não consegue atender a todos os docentes e que há uma fila de espera para os professores que procuram acolhimento.

Outra cobrança do sindicato está relacionada ao processo de readaptação dos professores — mudança de função determinada por motivos de saúde. A medida é aplicada quando o docente não tem mais condições de atuar em sala de aula, mas permanece apto a exercer outras atividades compatíveis na escola ou na rede de ensino, como funções na biblioteca, apoio pedagógico ou tarefas administrativas, sem redução salarial.

Segundo a entidade, os pedidos de readaptação estão paralisados desde 2024. O sindicato afirma que a Prefeitura do Recife alega que uma nova legislação, atualmente em análise na Procuradoria-Geral do Município, será apresentada para atualizar as regras de readaptação não apenas para os profissionais da Educação, mas para todo o conjunto de servidores da administração municipal.

Resposta da Seduc

A coluna Enem e Educação procurou a Secretaria de Educação do Recife para questionar o número de professores atendidos pelo Programa Bem-Estar, a existência de fila de espera, os principais motivos dos afastamentos e o acompanhamento de casos de doenças psicossomáticas. A pasta também foi questionada sobre os processos de readaptação funcional e as denúncias de que pedidos não estariam sendo deferidos pela rede desde 2024.

Em nota, a Seduc informou que, “quando identifica situações que demandam acompanhamento especializado, o servidor é acolhido e orientado a buscar os serviços de saúde adequados”. A pasta disse que , desde o início das atividades do programa, em 2023, já foram realizados 26.772 atendimentos a profissionais da rede municipal de ensino.

Sobre a readaptação funcional, também foi informado que atualmente há cerca de 770 professores readaptados na rede municipal. Outros 173 novos processos já foram homologados pela Perícia Médica da Prefeitura e aguardam portaria. Além disso, há processos em andamento relacionados a pedidos de prorrogação ou que ainda se encontram em etapas iniciais.

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