CNJ determina apuração sobre juiz que anulou medidas da Operação Barriga de Aluguel

CNJ determina apuração sobre juiz que anulou medidas da Operação Barriga de Aluguel

Representação será encaminhada ao TJPE para investigar conduta de Rildo Vieira da Silva; magistrado anulou cautelares da operação que apura contratos da Prefeitura do Recife

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) determinou o encaminhamento ao TJPE (Tribunal de Justiça de Pernambuco) de uma representação para apurar a conduta do juiz Rildo Vieira da Silva. O magistrado anulou medidas cautelares da Operação Barriga de Aluguel, que investiga a Prefeitura do Recife, poucas horas após assumir o caso; um mês depois, seu filho foi nomeado procurador do município.

A representação foi levada ao órgão pelo candidato a deputado estadual Manoel Medeiros (Novo-PE). Segundo o processo, a investigação do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) apurava suspeitas de “fraudar licitações e contratos administrativos, desviar recursos públicos e lavar dinheiro” em contratos de R$ 200 milhões voltados a empresas de engenharia.

Cerca de um mês após a anulação das medidas cautelares pelo magistrado, o filho do juiz, Lucas Vieira Silva, foi nomeado para o cargo de Procurador Judicial do município por meio da Portaria nº 1.777, de 23 de dezembro de 2025, em vaga destinada a Pessoas com Deficiência (PcD).

A nomeação, no entanto, foi cancelada pelo prefeito João Campos (PSB) em 30 de dezembro de 2025 e a vaga passou para o candidato seguinte da lista. O cancelamento ocorreu após vir a público que a apresentação do laudo de PcD ocorreu três anos após a realização do concurso, o que fez o candidato avançar da 63ª para a 1ª colocação na cota.

Ao analisar o caso em despacho do último dia 14, o Conselho Nacional de Justiça destacou que o magistrado “não rebateu” as acusações de frustrar a transparência e a celeridade processual, determinando o envio dos autos via PJeCOR para a Corregedoria-Geral do TJPE.

Histórico das instâncias

Antes da deliberação do CNJ, o caso passou por diferentes instâncias. O colegiado do TJPE chegou a afastar a tese de nulidade dada pelo juiz e autorizou a retomada da investigação, em decisão relatada pelo desembargador Mauro Alencar de Barros.

Posteriormente, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, determinou a suspensão da apuração, apontando que a falta de individualização das condutas indicava possível “pesca probatória”.

Nas redes sociais, o vereador Osmar Ricardo (PT) reforçou a cobrança por transparência e a articulação para a coleta de assinaturas visando a instalação de uma CPI na Câmara do Recife para investigar os contratos municipais.

Em entrevista à CNN, Manoel Medeiros celebrou a decisão da corregedoria e afirmou que o episódio, que ficou conhecido localmente como “fura-fila”,  é um marco na história de Pernambuco “no que se refere a colocar a investigação de corrupção embaixo do tapete”. Para ele, a eventual investigação sobre o magistrado é o “primeiro passo concreto para que isso não fique sem consequências”.

Manoel também criticou a decisão do ministro do STF, afirmando que a medida busca proteger o Partido Socialista Brasileiro (PSB): “A decisão monocrática do ministro Gilmar Mendes não pode ser eterna e a sociedade tem o direito de saber o que tanto incomoda João Campos e o PSB nesse inquérito”, declarou.

Em nota enviada à CNN, a Prefeitura do Recife reafirmou a “lisura e a legalidade de todos os procedimentos administrativos realizados pelo município, sempre pautados pelo interesse público, pela transparência e pelo cumprimento da legislação”. A gestão destacou ainda que o próprio STF determinou o trancamento da apuração do MPPE ao identificar “medidas genéricas, ausência de individualização de condutas e ocorrência de ‘pesca probatória’”, e reforçou sua confiança nas instituições e no devido processo legal.

Procurada pela reportagem para detalhar os prazos e trâmites do envio da representação ao estado, a assessoria do Conselho Nacional de Justiça informou a existência da Reclamação Disciplinar em curso contra o magistrado Rildo Vieira da Silva no órgão.

O Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) e o juiz Rildo Vieira também foram acionados para se posicionarem sobre os questionamentos relativos às decisões judiciais e aos atos de nomeação. A matéria será atualizada assim que houver retorno das partes, e o espaço segue aberto.

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