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As mudanças previstas para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a partir de 2028 estão relacionadas, entre outros fatores, aos resultados que o Brasil vem alcançando em avaliações educacionais internacionais.
Divulgado no dia 8 de setembro, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), avaliou o desempenho de estudantes de 15 anos em diferentes áreas do conhecimento. Na edição de 2025, 49% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, considerado o patamar mínimo de competência leitora.
Durante o 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, realizado pela Jeduca, em São Paulo, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, confirmou que a equipe técnica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) está se debruçando sobre novos mecanismos e formas de aperfeiçoar o exame.
“Com os resultados recentes internacionais sobre leitura, há uma inclinação do Inep de que a forma de você cobrar leitura, por exemplo, e escrita, ela mude. Então, essa própria redação, ela tende a ser alterada, mas obviamente toda vez que a gente mexe com o Enem, a gente tem que ter muito cuidado”, explicou Barchini.
“Tem um grupo técnico realizando estudos, ouvindo a sociedade, vendo experiências internacionais, e a vontade é que a gente faça uma prova melhor em 2028”, completou.
Vale lembrar que o Enem 2026 já passa a integrar o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), contribuindo para a avaliação da qualidade do ensino dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio. Já as mudanças previstas para o exame a partir de 2027 e 2028 devem ser apresentadas pelo Inep até o final deste ano.
O que está previsto?
Na última semana, em uma reunião realizada em Brasília, foi apresentada uma proposta preliminar para adequar a prova à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e à Política Nacional do Ensino Médio.
A iniciativa também prevê alterações significativas na redação, com a produção de textos menores. Atualmente, o candidato precisa escrever um texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas. Pela proposta, a redação poderia ser dividida por áreas do conhecimento: 20 linhas para Linguagens, 10 para Ciências Humanas, 10 para Ciências da Natureza e 10 para Matemática.
Também há a possibilidade de adaptação dos argumentos para outros gêneros textuais, como resenhas críticas, manifestos, discursos públicos, editoriais e artigos de opinião.
O ministro da Educação destacou que, no ano passado, o Enem já iniciou a aplicação do modelo testlet, que reúne de duas a seis questões em torno de um único texto-base, imagem, gráfico ou situação-problema, como forma de tornar a prova mais ágil, mas que até para manter a Teoria de Resposta ao Item (TRI) é necessário que tudo seja muito bem pensado.
“Eu acho que essa questão de você fazer perguntas abertas e outros tipos de questionamentos para você fomentar leitura e escrita é algo muito importante. Temos um problema sério na Matemática, na forma como nós vamos cobrar esses conteúdos. Também tem a questão das telas, que também nos preocupa bastante, porque a gente precisa prender a atenção do estudante por muitas horas. Isso tem ficado cada vez mais difícil”, avaliou Leonardo Barchini.
Professoras avaliam as possíveis mudanças
A coluna Enem e Educação conversou com professoras sobre as possíveis mudanças no exame, que tem sido a principal porta de entrada para o ensino superior nos últimos 20 anos.
Para a professora de Redação Márcia Lira, do Curso Oficina de Estudos e da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Padre Osmar Novaes, antes de qualquer alteração é preciso fazer uma pergunta fundamental: o que queremos avaliar?
“O modelo de prova atual é muito engessado e, muitas vezes, valoriza mais a capacidade de o aluno se adaptar a uma estrutura pré-estabelecida do que sua efetiva capacidade de argumentar e se comunicar. Ao mesmo tempo, não podemos mudar o formato sem discutir as desigualdades de preparação entre estudantes da rede pública e privada”, disse.
A professora de Redação do Colégio Saber Viver, Fernanda Nascimento, também acredita que mudanças alinhadas à BNCC são necessárias, mas pondera que, neste momento, o Inep precisa ser transparente e realizar as modificações com tempo para que as escolas possam se adaptar a elas.
“O vestibulando já sofre bastante pressão nesse período de avaliação, então o Inep não pode ser responsável por piorar esse sofrimento. A prova do Enem já é muito coerente. Agora teremos a oportunidade de melhorar o que já está no caminho certo”, ressaltou.
Para a professora do Colégio Saber Viver, uma das possibilidades de mudança está na valorização da autoria e da criatividade dos estudantes. “Infelizmente, nos últimos anos, fórmulas foram desenvolvidas para fazer o aluno executar comandos, mas não explorar, de fato, o seu potencial crítico”, disse.
Nesse ponto, a diversificação dos gêneros textuais pode trazer essa dinâmica para a prova.“A BNCC traz justamente essa abordagem: a atuação do cidadão em sociedade. Gêneros como artigo de opinião, carta aberta e comentário na internet fazem parte do nosso dia a dia e precisam ser compreendidos com profundidade e produzidos de modo eficiente”, explicou Fernanda Nascimento.
Já a possibilidade de integração com as demais áreas do conhecimento exigidas na prova, no entanto, deve ser abordada com cautela, segundo Márcia Lira. Ela considera a interdisciplinaridade importante, mas ressalta que isso não significa necessariamente fragmentar a produção textual em respostas cada vez menores.
“Reduzir o espaço de escrita pode limitar justamente a capacidade de desenvolver, relacionar e aprofundar ideias. Além disso, uma mudança desse porte pode ampliar desigualdades, principalmente entre estudantes que tiveram oportunidades muito diferentes de desenvolver leitura e escrita ao longo da Educação Básica. Antes de implementar um novo formato, seria fundamental discutir o que ele efetivamente acrescenta à avaliação e quais condições as escolas terão para preparar os estudantes”, ponderou a professora.
*A titular da coluna Enem e Educação viajou a convite da Jeduca
Ministro da Educação fala sobre o futuro do IDEB e as novas metas para o ensino no Brasil



