A República brasileira parece sofrer de uma escassez cada vez maior de coragem. Seus principais personagens demonstram extraordinária habilidade para conquistar e preservar posições de poder, mas frequentemente desaparecem quando chega a hora de assumir responsabilidades.
O país enfrenta desafios econômicos, sociais e institucionais cada vez mais complexos, enquanto parte de suas lideranças se dedica a calcular o custo pessoal de qualquer decisão. O resultado é um sistema político que premia a conveniência, tolera a omissão e confunde agressividade com coragem.
A saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, poucos dias depois de receber quase 60 milhões de votos para presidente, é a demonstração mais recente dessa contradição. Mas está longe de ser a única.
O comportamento se espalhou pelas instituições brasileiras e adquiriu uma aparência de normalidade. Autoridades adiam decisões, políticos transferem responsabilidades e dirigentes encontram justificativas para evitar qualquer medida capaz de produzir desgaste. A coragem necessária para enfrentar problemas foi substituída pela habilidade de administrar conveniências.
Percebem como há muita disposição para exercer autoridade e uma dificuldade crescente de assumir as consequências que acompanham seu exercício. Isso vale para Flávio, Alexandre de Moraes, senadores, deputados, presidentes de TSE e STF.
Omissão
O episódio da ampliação do horário de votação no último domingo oferece um exemplo constrangedor. A campanha de Lula (PT) apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral, ainda no início da tarde, pedidos para estender a votação em municípios onde havia denúncias de dificuldades no transporte de eleitores. A campanha de Flávio também solicitou prorrogação em alguns estados, alegando problemas provocados pelas chuvas.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, pediu informações técnicas, mas decidiu não decidir por horas. O assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal, presidido por Edson Fachin, onde também houve horas de “o que eu faço?”. Quando o processo finalmente foi distribuído a Cristiano Zanin, restavam poucos minutos para o encerramento da votação.
A consequência foi uma confusão desnecessária, que ofereceu argumentos para questionamentos sobre a eleição.
Conveniência
O comportamento se repete em outras áreas da República. O Congresso Nacional conhece os desequilíbrios das contas públicas, as distorções tributárias e os privilégios que precisam ser enfrentados. Mas reformas impopulares representam riscos eleitorais. É sempre mais conveniente exigir soluções do governo, preservar benefícios e responsabilizar terceiros pelas dificuldades. Na votação do fim da escala 6×1, por exemplo, deputados disseram a esta coluna em reserva que iria gerar um problema muito grande para a economia, mas não podiam votar contra por causa da eleição que se aproximava.
No Supremo, a crise de credibilidade também exige decisões que seus integrantes parecem pouco dispostos a enfrentar. A discussão sobre limites das decisões individuais, conflitos de interesse e mecanismos de responsabilização não pode continuar subordinada à proteção dos próprios ministros. Edson Fachin tem diante de si a responsabilidade de conduzir esse processo, mesmo que isso signifique enfrentar resistências dentro da Corte.
A República desenvolveu uma extraordinária capacidade de produzir autoridades que exigem respeito às instituições enquanto fogem apavorados do desgaste necessário para preservá-las.
Maquiavel atribuía à virtù a capacidade de agir diante de circunstâncias adversas, enfrentar riscos e exercer liderança em situações de incerteza. O político brasileiro contemporâneo, que nem deve saber “o que”é Maquiavel, parece particularmente interessado apenas em sobreviver. Aprende rapidamente a negociar, recuar, transferir responsabilidades e preservar sua posição. A coragem acaba sendo reservada aos discursos fantasiosos.
Fuga
Flávio Bolsonaro oferece o exemplo mais recente desse comportamento. Recebeu 59,8 milhões de votos e perdeu a eleição presidencial por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões. Saiu das urnas com legitimidade política para comandar uma oposição expressiva ao quarto governo Lula.
Poderia ter permanecido no Brasil, reconhecido o resultado, organizado seus aliados e assumido a responsabilidade de representar os milhões de brasileiros que confiaram nele. Também teria condições de contestar judicialmente as medidas que considerasse abusivas e enfrentar as investigações das quais é alvo, com todas as garantias previstas na Constituição.
Preferiu deixar o país.
Flávio nega irregularidades nas investigações que envolvem suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Tem direito à defesa e à presunção de inocência. Também pode questionar a legalidade das decisões tomadas contra ele. Mas sua saída às pressas, depois de uma ordem judicial que determinou a entrega de seus passaportes, merece uma avaliação política severa.
O senador passou a campanha pedindo aos brasileiros que confiassem nele para enfrentar os problemas do país. Quando chegou sua primeira grande adversidade depois da eleição, decidiu ir para longe.
Estava mesmo preparado?
Coragem
A política brasileira está repleta de personagens que fazem discursos inflamados, ameaçam adversários e cultivam a imagem de homens fortes nas redes sociais. Muitos demonstram uma impressionante agressividade diante dos microfones e das câmeras. Mas os leões viram gatinhos ao primeiro sinal de dificuldade.
O Brasil continuará enfrentando problemas que exigem escolhas difíceis. A renda média permanece baixa, a carga tributária sufoca atividades produtivas, a violência compromete a vida cotidiana e as instituições atravessam sucessivas crises de confiança. Nenhum desses desafios será resolvido por dirigentes preocupados exclusivamente com a própria sobrevivência política.
“O que a vida quer da gente é coragem”, diria Guimarães Rosa, que provavelmente os políticos atuais também não sabem quem é.


