pernambucana transforma lixo em arte e empreende com histórias das palafitas

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As palafitas do Recife passavam pela janela do ônibus todos os dias. O que podia ser apenas parte da paisagem às margens do Rio Capibaribe, para Elizângela Maria do Nascimento eram cenários guardavam histórias, memórias e modos de vida que raramente encontravam espaço para serem vistos.

O que passa embaixo da ponte e bóia nas águas como referência e arte. Há mais de duas décadas, as moradias erguidas sobre a água reaparecem em miniatura nas mãos da artista pernambucana de 46 anos, conhecida como Elizângela das Palafitas.

Utilizando materiais descartados – muitos deles semelhantes aos que compõem as próprias estruturas retratadas – ela transforma isopor, papelão, madeira, plástico e arame em maquetes e quadros que recriam o cotidiano das comunidades ribeirinhas da capital pernambucana.

Da precariedade à festa, a artista plástica utiliza materiais recicláveis para retratar a vida nas palafitas do Recife por meio de maquetes e quadros.

Mais do que flagrar realidades desiguais que espelham edifícios luxuosos nas margens do Rio Capibaribe, na capital pernambucana, vê arte no dia a dia dos moradores das comunidades.

O trabalho de reciclagem de materiais sempre esteve na vida de Elizângela, mas ganhou novas formas em 2003.

“A importância deste trabalho para mim é ressignificar o lixo, mostrando que há beleza, valor, potência criativa e consciência ambiental. Com este trabalho, posso gerar renda, beleza e reflexão em vez de poluição”, explica.

As palafitas eram o cenário da janela do ônibus, enquanto se deslocava pelo estado. Natural do município de Moreno, Região Metropolitana do Recife (RMR), Elizângela viu cultura e história naqueles territórios.

“A inspiração surgiu quando eu transitava entre Moreno, Recife e Olinda, onde morei por muito tempo. Andava de ônibus ou de metrô e até mesmo a pé observando aqueles cenários de moradias erguidas sobre o rio Capibaribe”, conta a artista.

Após visitar comunidades ribeirinhas do Recife e presenciar as vulnerabilidades extremas das famílias, falta de saneamento e de dignidade, viu na arte uma forma de dar visibilidade aos cenários.

A importância deste trabalho para mim é ressignificar o lixo, mostrando que há beleza, valor, potência criativa e consciência ambiental

Elizângela das Palafitas, artista plástica

Mas os mini mundos criados por Elizângela das Palafitas não carregam apenas a dor.

Do grafite na estrutura das moradias ao trabalho das matriarcas com sururu, marisco e peixe, passando pelas mesas de sinuca nos bares e pelas roupas estendidas nas ruas, a artista também revela como as comunidades se organizam, se divertem e se apoiam.

Do ateliê ao museu



Obras de Elizângela das Palafitas estavam expostas no Museu do Homem do Nordeste, no Recife – Laís Nascimento/JC

Para a artista plástica, a arte “é para dar visibilidade às comunidades vulneráveis, transformando a realidade das favelas e palafitas em arte respeitada”. “Ela me permite ocupar alguns espaços como TVs, revistas, jornais, feiras de artesanato, museus e galerias contemporâneas e isso é muito bom pra mim”, pontua.

Duas das obras de Elizângela das Palafitas, “Da Lama ao Caos” e “Cabaré de Biu Véia”, fizeram parte da exposição de longa duração do Museu do Homem do Nordeste (Muhne), em Casa Forte, Zona Norte do Recife.

Na mostra, as maquetes faziam um contraponto aos engenhos açucareiros e casas-grandes, apresentados na mesma sala.

A denúncia nas obras de Elizângela passa pela habitação precária, pelo direito negado à cidade e pela falta de enfrentamento ao que todo mundo vê.

Ao mesmo tempo, ela equilibra os materiais reciclados para dar luz à diversão como modo de revolução dessas pessoas, como no “Cabaré de Biu Véia”.

Empreendendo, Elizângela aponta, sobretudo, os caminhos que as populações traçam como cultura de resistência e sobrevivência.

Para Omero Galdino Jr, analista do Sebrae Pernambuco, o empreendedor da área criativa, principalmente o artista plástico voltado para a utilização de materiais reciclados, tem um diferencial.

“Eles conseguem promover um trabalho que é sustentável e ajudam a criar a característica da identidade do local, o que é muito importante quando a gente fala de empreendedorismo”, explica.

Morar é um desafio constante para as pessoas que vivem em palafitas. Esses territórios representam mais do que a falta de políticas habitacionais – o que é retratado na arte de Elizângela. A vulnerabilidade é a falta de acesso à saúde, educação, à cultura e à arte.

Arte: empreendedorismo para poucos


Laís Nascimento/JC

Artista visual utiliza material reciclado para construir miniaturas do Recife, com inspiração nas palafitas – Laís Nascimento/JC

“Não dá pra viver de arte”, diz a artista. Apesar de obras expostas em galerias, museus e feiras, Elizângela das Palafitas aborda que empreender com arte ainda é inacessível.

Por isso, suas obras são uma segunda opção de renda. Para garantir os pagamentos do mês, precisa trabalhar como cuidadora de idosos e faxineira.

“Estou sempre produzindo alguma coisa, porque não dá para viver de arte. A gente paga para expor, passa o dia inteiro em uma feira e muitas vezes não consegue fazer uma venda para o dinheiro do transporte ou do almoço”, afirma.

O analista do Sebrae Pernambuco, Omero Galdino Jr, explica a importância do empreendedorismo formal.

“A gente pede muito que o empreendedor saia da informalidade porque hoje, ter uma empresa formalizada, protege juridicamente a pessoa física e também dá direitos para que ela esteja acobertada”.

Segundo ele, alguns dos benefícios são a seguridade social e as notas geradas, que ajudam com credibilidade, descontos em compras e participação de editais.

“Hoje, as empresas que têm CNPJ saem na frente das informais no que diz respeito ao crédito, porque o banco dá uma margem de crédito maior”, pontua.

Para Elizângela, o percurso esgota. “Às vezes eu me sinto desestimulada, mas eu gosto tanto de fazer a minha arte que eu não desisto. Viver de arte é uma ilusão, mas eu não desisto”.

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