O comércio internacional não admite amadorismos. O Brasil precisa resgatar sua tradição de diplomacia pragmática
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O Brasil acaba de sofrer um de seus mais duros reveses recentes no comércio internacional. A confirmação de que os EUA aplicarão, a partir do dia 22 de julho, uma sobretaxa de 25% sobre mais de 4.000 produtos nacionais é um problema a mais para a economia. Mais do que uma retaliação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), o tarifaço expõe a ausência de um ativismo negocial pragmático do governo, incapaz de buscar soluções de mercado maduras para preservar alianças.
A investigação da Seção 301, que fundamentou a taxação, mirou supostas práticas desleais, citando ordens judiciais sobre plataformas digitais, falhas ambientais e o nosso sistema Pix. Sobre o Pix, vale o destaque: trata-se de uma tecnologia revolucionária e profundamente inclusiva para milhões de brasileiros, que democratizou o acesso financeiro, e não de um subsídio injusto. Diante de um parceiro dessa envergadura, o Itamaraty deveria ter dialogado tecnicamente, recorrendo, inclusive, ao apoio de empresas e entidades representativas, onde alguma obtiveram sucesso recente. Ocorreu o oposto: o governo engessou-se, e Washington ergueu as barreiras.
O preço dessa inércia corrói a balança comercial. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (MDIC) ilustram o recuo. Em 2025, os setores atingidos pela tarifa representavam 15% das exportações aos EUA (US$ 5,8 bilhões). Para 2026, o impacto projetado salta para 18% (US$ 7,4 bilhões). Esse estrangulamento agrava o déficit comercial com os americanos, que já acumula US$ 1,52 bilhão apenas neste ano. No front macroeconômico, choques comerciais dessa magnitude geram instabilidade cambial, o que fatalmente eleva o risco de inflação importada e impõe uma pressão adicional na já complexa tarefa do Banco Central de monitorar e conduzir a atual taxa de juros na economia brasileira.
A restrição nos EUA desencadeia ainda um gravíssimo risco geopolítico: o aprofundamento da nossa dependência estrutural da China. Ao negligenciar o mercado americano, o Brasil concentra perigosamente suas exportações no mercado asiático, tornando a economia cada vez mais refém de um único parceiro, com mais de 30% das exportações brasileiras para lá.
Nos impactos setoriais, o USTR listou mais de 2.200 exceções estratégicas, poupando carnes, minerais, aviões e frutas. Para Pernambuco, a inclusão das frutas garante um alívio vital, mantendo o dinamismo das mangas e uvas do polo de irrigação do Vale do São Francisco. Contudo, o setor sucroenergético pernambucano não escapou; o etanol foi o grande foco da sanção, sob alegação de falta de reciprocidade. Calçados e equipamentos elétricos também tiveram suas isenções sumariamente rejeitadas.
O comércio internacional não admite amadorismos. O Brasil precisa resgatar sua tradição de diplomacia pragmática. Quando o governo se omite de negociar e tenta usar a imposição de uma barreira como munição eleitoreira, todos saem perdendo.



