Jornalista tinha marca da apuração rigorosa e a precisão nos textos jornalísticos que foram levados para seus livros quando decidiu ser escritor
Fernando Castilho
Publicado em 22/08/2026 às 18:00
| Atualizado em 22/08/2026 às 19:05
Notícia
É o fato ou acontecimento de interesse jornalístico. Pode ser uma informação nova ou recente. Também
diz respeito a uma novidade de uma situação já conhecida.
Artigo
Texto predominantemente opinativo. Expressa a visão do autor, mas não necessariamente a opinião do
jornal. Pode ser escrito por jornalistas ou especialistas de áreas diversas.
Investigativa
Reportagem que traz à tona fatos ou episódios desconhecidos, com forte teor de denúncia. Exige
técnicas e recursos específicos.
Content Commerce
Conteúdo editorial que oferece ao leitor ambiente de compras.
Análise
É a interpretação da notícia, levando em consideração informações que vão além dos fatos narrados.
Faz uso de dados, traz desdobramentos e projeções de cenário, assim como contextos passados.
Editorial
Texto analítico que traduz a posição oficial do veículo em relação aos fatos abordados.
Patrocinada
É a matéria institucional, que aborda assunto de interesse da empresa que patrocina a reportagem.
Checagem de fatos
Conteúdo que faz a verificação da veracidade e da autencidade de uma informação ou fato divulgado.
Contexto
É a matéria que traz subsídios, dados históricos e informações relevantes para ajudar a entender um
fato ou notícia.
Especial
Reportagem de fôlego, que aborda, de forma aprofundada, vários aspectos e desdobramentos de um
determinado assunto. Traz dados, estatísticas, contexto histórico, além de histórias de personagens
que são afetados ou têm relação direta com o tema abordado.
Entrevista
Abordagem sobre determinado assunto, em que o tema é apresentado em formato de perguntas e
respostas. Outra forma de publicar a entrevista é por meio de tópicos, com a resposta do
entrevistado reproduzida entre aspas.
Crítica
Texto com análise detalhada e de caráter opinativo a respeito de produtos, serviços e produções
artísticas, nas mais diversas áreas, como literatura, música, cinema e artes visuais.
Clique aqui e escute a matéria
O jornalista Homero Fonseca, que nos deixou na tarde deste sábado (22) de agosto, foi, certamente, um dos repórteres de imprensa mais completos que o jornalismo entregou como profissional.
Homero era refinado. Tinha técnica de apuração sofisticada, disciplinada e exigente com o que entregava. Tão preciso que não demorou para ser chamado para produzir relatórios de empresas pernambucanas quando elas decidiram publicar algo mais que simples balanço.
Ele dava lustro a dados frios e capturava ações sociais dessas empresas, provocando a apresentação delas e mostrando gente naquilo. Na década de 80, seriam considerados os atuais relatórios de ESG, quando a sigla sequer existia. Essa precisão naturalmente o levou para o jornalismo econômico, onde acabou por fazer quase toda sua carreira.
Homero Fonseca já era profissional sindicalizado e atuante na entidade sindical, quando decidiu prestar vestibular na Unicap, formando-se na turma de 1979. Tinha uma outra marca que hoje poucas pessoas sabem. Ele cuidava da formação dos novos jornalistas. Não apenas na questão de apuração, mas também de ensinar conceitos de ética e respeito às pessoas e aos entrevistados.
Sim, Homero era duro e exigente. Cobrava dados precisos e, no tempo em que capturar informações de retaguarda exigia ir ao departamento de pesquisa, folhear centenas de páginas recortadas. Mas era generoso quando surpreendia os novatos assinando os primeiros textos, seja no Diário de Pernambuco, seja no Jornal do Commercio.
O jornalista era defensor da ideia, ainda hoje moderna, do editor decidir se assina ou não um texto como prêmio pelo seu trabalho de apuração, especialmente aos estagiários. Como um incentivo a “aprender a respeitar a língua, a ortografia e a apuração dos fatos.’
Homero Fonseca sempre se apresentou como um jornalista engajado de esquerda. Embora não filiado, esteve na linha de frente nas batalhas de rua em passeatas que percorriam o centro do Recife com os manifestantes atrás da megafaixa “Pelas Liberdades Democráticas”.
Ele esteve à frente de vários jornais, fez a capa deles, entre eles o Diário de Pernambuco, estruturou redações, além de ser primeiro nas atuais assessorias de comunicação de órgão públicos, entre eles a Fundação Joaquim Nabuco nos tempos de Gilberto Freyre.
E escreveu dezenas de relatórios anuais de bancos, entre eles o do Banorte, quando o banco de Pernambuco era um dos mais avançados em termos de tecnologia.
Como diziam seus amigos mais próximos, era o texto mais preciso do jornalismo pernambucano. Ele passou pelas redações dos três grandes jornais de Pernambuco e esteve à frente da Folha de Pernambuco, onde ‘aspeou’ uma frase que virou marca pela tragédia do desabafo de uma mãe ao ver seu filho morto numa operação policial: “Meu filho era uma alma sebosa”.
A diferença é que a expressão típica do noticiário policial veio suportada pela história de uma mãe pranteando a dor da morte pelo aparelho policial, resignando-se com o seu insucesso como progenitora.
Homero esteve na redação do Recife dos grandes jornais e participou de todas as coberturas da campanha da redemocratização numa carreira tão limpa e honesta que o fez ser lembrado e respeitado, pelo que elevou o nível da régua de produção do lugar por onde passou pelo seu padrão de entrega.
E isso é possível na rigorosa apuração do seu livro Tapacurá: Viagem ao planeta dos boatos que lançou em maio de 2011, analisando o boato de que Tapacurá havia estourado mais uma vez, assombrou a população recifense.
Na vida cultural, era um leitor voraz, freguês premium do icônico Livro Sete de Tarcísio Pereira e era uma espécie de orientador sobre o que um jornalista não poderia deixar de ler para ser um profissional de qualidade.
Muitos de nosso colegas leram John Reed e seu clássico Dez Dias que Abalaram o mundo; A Primeira Vítima, de Phillip Knightley, é um livro clássico de 1975, que analisa a história dos correspondentes de guerra e Esquerdismo A Doença Infantil do no Comunismo, de Vladimir Lénine indicados por Homero Fonseca.
E no Carnaval, ajudou a fundar o icônico Siri na Lata ao lado de Ricardo Carvalho e Paulo Brás pelas ruas de Olinda. Talvez esse fosse o único espaço onde o sério e carrancudo Homero se permitia mudar a fantasia.
Por isso, a partida de Homero, que deixou o jornalismo e enveredou pelos livros, nos deixa menores. Ele ajudou centenas de jornalistas a apurar melhor, escrever melhor e responder às demandas da sociedade.
O que a gente poderia chamar hoje de trabalhar pela melhoria da reputação do profissional de imprensa.
Talvez a maior contribuição de Homero Fonseca ao jornalismo tenha sido essa: formar uma geração inteira de profissionais que aprendessem a ser éticos. E lutar para que muitos não se perdessem pelo caminho.
E tudo isso apenas mostra o seu método de trabalho de jornalismo de precisão. Quando não existia a barra de rolagem no PC, o Google e o smartphone.



