Lula une a chapa de João, mas Humberto estabelece limite à fidelidade

Lula une a chapa de João, mas Humberto estabelece limite à fidelidade


A chapa encontra no presidente sua principal unidade mas Humberto contraria Lula para defender o polo de confecções do Agreste pernambucano.

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Igor Maciel


Publicado em 27/08/2026 às 10:55
| Atualizado em 27/08/2026 às 12:11

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Humberto Costa (PT) utilizou uma palavra para explicar por que pretende permanecer mais oito anos no Senado: previsibilidade. Durante sabatina no Passando a Limpo, da Rádio Jornal, lembrou os 46 anos de filiação ao PT, afirmou que nunca mudou de partido e ressaltou que sempre esteve ao lado do presidente Lula, nos momentos bons e ruins. Em tempos difíceis, de tormenta política, previsibilidade é um ativo que o senador decidiu incorporar. Tem seu sentido.

A mensagem é simples. Quem vota em Humberto sabe previamente em qual campo ele estará e quais posições defenderá. Depois de 16 anos no Senado, o candidato apresenta a permanência no mesmo partido e a fidelidade ao mesmo projeto como garantias de sua atuação futura.

Essa previsibilidade individual, entretanto, está inserida numa chapa formada por trajetórias bem menos lineares. PT e PSB já estiveram em lados opostos. João Campos (PSB) e Marília Arraes (PDT) protagonizaram uma disputa dura pela Prefeitura do Recife em 2020 quando ela era do PT. Humberto e Marília também enfrentaram divergências dentro do Partido dos Trabalhadores. Agora, os três compartilham a mesma campanha e dizem representar o mesmo projeto.

Superação

Humberto negou que a referência às mudanças de partido ou à coerência política fosse uma crítica aos próprios aliados, mas também não deu nome às afirmações. Disse que os conflitos fazem parte da política, podem produzir excessos e posteriormente exigem autocrítica. As diferenças, segundo ele, “não foram esquecidas”. Foram superadas.

O PSB enfrentou o PT em diferentes momentos, Marília deixou o partido depois de sucessivos conflitos internos e João a derrotou numa campanha marcada por ataques ao petismo. Humberto não apresentou uma revisão detalhada dessas divergências. Preferiu submetê-las a uma prioridade maior.

É possível que uma aliança seja formada sem que todos os seus integrantes façam o mesmo percurso. A política também é construída pela capacidade de reorganizar posições e produzir convergências. No caso da chapa de João, porém, a unidade não decorre de uma história compartilhada. Surgiu da necessidade eleitoral e da identificação atual com um personagem nacional. Que todo mundo sabe quem é.

Lula

Humberto explicou diretamente qual é o principal elemento de união. Depois de elogiar a administração de João no Recife, afirmou que “o que mais nos une é exatamente o fato de que nós representamos o presidente Lula aqui em Pernambuco”.

A frase resume a composição melhor do que qualquer fotografia conjunta. João, Marília e Humberto não precisam reconstruir integralmente as relações anteriores porque Lula fornece a identidade comum. O presidente aproxima o PSB do PT, reúne antigos adversários e oferece à chapa um discurso nacional capaz de acomodar as disputas estaduais.

A lulodependência produz unidade, mas também expõe uma fragilidade. Se Lula é o principal motivo pelo qual os integrantes caminham juntos, a chapa ainda precisa demonstrar o que os une quando a discussão se desloca da eleição presidencial para os problemas específicos de Pernambuco. Também dependerá da capacidade de converter a força eleitoral do presidente em votos simultâneos para três candidatos.

Limite

A ligação com Lula não significa, segundo Humberto, submissão em qualquer circunstância. Questionado sobre o que faria se uma proposta do governo federal contrariasse diretamente os interesses do estado, respondeu que ficaria com Pernambuco.

O candidato citou a reforma tributária. Durante a discussão sobre os incentivos concedidos à Stellantis e à Baterias Moura, setores do governo federal defendiam uma posição que poderia prejudicar as empresas instaladas no estado. Humberto procurou Lula, e o presidente interveio para preservar os benefícios durante a transição. Naquele caso, a divergência foi resolvida dentro do próprio governo.

A taxa das blusinhas apresenta agora um conflito mais direto. Lula transformou o fim da cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 numa prioridade política e fez um acordo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, para garantir a votação da medida na próxima semana.

Humberto escolheu a posição contrária. Reconheceu que a retirada da taxa prejudica Pernambuco e anunciou que votará pela manutenção da cobrança para proteger o polo de confecções do Agreste da concorrência dos produtos importados.

A divergência é significativa. O principal nome do PT em Pernambuco e um dos dirigentes mais importantes do partido no Brasil decidiu contrariar uma pauta à qual Lula atribuiu peso suficiente para negociar pessoalmente sua aprovação. A chapa depende do presidente para produzir unidade e ampliar sua força eleitoral. Humberto deixou claro, porém, que essa dependência encontra um limite quando considera que os interesses de Pernambuco estão ameaçados.

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