João Campos está disposto a reconstruir o PSB como fez seu pai?

João Campos está disposto a reconstruir o PSB como fez seu pai?


Após a derrota, ex-prefeito enfrenta o desafio de recuperar forças municipais do partido, como Eduardo Campos precisou fazer depois de 1998.

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Em 1992, Eduardo Campos disputou a Prefeitura do Recife e terminou em quinto lugar, com apenas 4,99% dos votos válidos. Cinco anos depois, teve seu nome envolvido no escândalo dos precatórios, durante o governo de Miguel Arraes, do qual havia sido secretário da Fazenda. A crise provocou desgaste político, embora o Supremo Tribunal Federal tenha rejeitado, em 2003, a denúncia apresentada contra Eduardo. Em 1998, Arraes perdeu o Governo de Pernambuco para Jarbas Vasconcelos. O PSB ficou sem a máquina estadual e sofreu uma debandada de lideranças. Foi nesse cenário que Eduardo precisou reconstruir seu caminho político. Ele dizia, na época, que era tratado como “leproso” por outros políticos e teve que se reinventar.

A história oferece uma comparação importante com a situação enfrentada agora por seu filho, João Campos (PSB).

Reconstrução

A derrota de Arraes desorganizou o PSB pernambucano. Prefeitos e lideranças que haviam se aproximado do partido durante os anos de governo procuraram novos caminhos políticos. O grupo perdeu influência administrativa, capacidade de articulação e boa parte de sua estrutura municipal.

Eduardo compreendeu que a recuperação do partido exigiria um trabalho que começava longe dos grandes palanques. Era necessário preservar as lideranças que permaneceram, reconstruir relações no interior, organizar diretórios, aproximar prefeitos e formar novas alianças.

A reconstrução não aconteceu de uma hora para outra. Também não dependeu exclusivamente da atuação de Eduardo, que manteve mandato de deputado federal e, posteriormente, integrou o governo Lula como ministro da Ciência e Tecnologia.

Foi um processo de oito anos entre a derrota de Miguel Arraes, em 1998, e a vitória de Eduardo para governador, em 2006. Quando finalmente conquistou o Palácio do Campo das Princesas, Eduardo havia ampliado sua capacidade de articulação e reunido forças que ultrapassavam as fronteiras tradicionais do PSB. Mas só conseguiu isso quando admitiu a própria situação e da sigla, com humildade.

Herança

João Campos iniciou sua trajetória em circunstâncias muito diferentes. Herdou um partido consolidado em Pernambuco, com uma história de governos estaduais e municipais, uma rede de lideranças e a força política dos sobrenomes Campos e Arraes. Conquistou a Prefeitura do Recife e foi reeleito em 2024 com uma votação expressiva.

A estrutura que recebeu permitiu que chegasse à disputa pelo Governo de Pernambuco em 2026 cercado pela expectativa de vitória. Mas a derrota para Raquel Lyra alterou profundamente o cenário. João deixou a Prefeitura do Recife para disputar a eleição e terminou sem conquistar o governo estadual. Continua presidente nacional do PSB, mas não dispõe mais do comando direto de uma das duas principais máquinas administrativas pernambucanas.

O partido conserva representação importante. Elegeu nove deputados estaduais, empatando com o PSD como maior bancada da próxima Assembleia Legislativa. Mas sua presença municipal encolheu. Dos 31 prefeitos eleitos em 2024, o PSB chegou a outubro deste ano com apenas 19. Nacionalmente, a legenda também saiu das eleições sem conquistar governos estaduais.

O resultado deixa João diante de uma situação que seu pai conheceu bem. A necessidade de recuperar influência política sem depender do controle do Governo de Pernambuco.

Interior

Durante a campanha, João percorreu municípios, conversou com prefeitos e procurou reconstruir alianças. Mas existe uma diferença fundamental entre mobilizar lideranças para uma eleição e organizar uma estrutura partidária capaz de sobreviver a uma derrota.

Eduardo precisou fazer a segunda coisa. Manteve relações políticas mesmo quando não havia cargos importantes para distribuir, acompanhou disputas municipais e participou da formação de uma rede que permitiu ao PSB recuperar espaço no estado.

João terá de decidir quanto de sua energia política será dedicado a esse trabalho. A eleição municipal de 2028 será uma oportunidade importante para medir os resultados. O partido precisará formar candidatos competitivos, ampliar sua presença nas prefeituras e recuperar relações com grupos políticos que se aproximaram de Raquel.

Essa tarefa exige tempo e atenção permanente. E não pode ser substituída apenas por aparições públicas, presença nas redes sociais ou articulações feitas a partir da direção nacional do partido.

Escolha

Há uma diferença importante entre Eduardo e João. O pai precisou construir sua liderança num partido que havia perdido grande parte da estrutura estadual. O filho chegou à política com uma organização já consolidada e experimentou rapidamente o poder executivo. Agora precisa descobrir como exercer influência quando já não ocupa esse espaço.

Isso não significa que João deva abandonar suas ambições eleitorais ou deixar de exercer a oposição ao governo Raquel. A bancada socialista terá papel relevante na fiscalização do Executivo, e a presidência nacional do PSB continua oferecendo capacidade de articulação. Mas recuperar protagonismo no estado exigirá um projeto que não dependa exclusivamente de uma candidatura ao governo ou de picuinhas dentro da Alepe.

Eduardo Campos precisou reconstruir o PSB a partir dos municípios para voltar ao Palácio do Campo das Princesas. João Campos terá de decidir se está disposto a percorrer um caminho semelhante ou se continuará tentando chegar ao governo apoiado somente no patamar político que herdou.

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