Compactos ocupam o espaço do dois quartos da classe média no Recife

Compactos ocupam o espaço do dois quartos da classe média no Recife


O médio padrão, que historicamente abrigava o dois quartos da classe média, encolheu em todas as frentes. Comprador leva menos área, focado em locação

por Lucas Moraes

O apartamento de um quarto deixou de ser nicho no Recife. Segundo o Panorama do Mercado Imobiliário do 3º trimestre de 2026, da Brain Inteligência Estratégica com a Ademi-PE, o compacto (studio, loft e 1 quarto) tem ticket médio de R$ 565 mil na capital, praticamente igual ao do padrão Standard (R$ 569 mil), faixa que vai de R$ 400 mil a R$ 1 milhão. É o intervalo em que antes se comprava um dois quartos para a classe média – produto atualmente escasso no Recife e em outras praças do País, pressionado pela restrição da Poupança e alta taxa de juros para financiamento. Quase não há mais oferta.

O desencaixe do produto econômico fez com que construtoras adaptassem seus lançamentos ao longo dos últimos anos (houve quem mirou o MCMV e quem viu oportunidade em imóveis de metragens menores com um quarto), e esse movimento aparece no preço do metro quadrado. O m² médio do compacto hoje é de R$ 16.532, contra R$ 10.016 do Standard, uma diferença de cerca de 65%. Está também 25% acima do médio padrão (R$ 13.237) e perto do médio-alto (R$ 16.788). Ou seja, quem tem orçamento para a faixa Standard encontra, em vez de mais espaço, uma unidade menor com valor por metro de produto mais sofisticado. A análise é mais sobre o poder de compra e produtos disponível do que pela opção feita pelo cliente. Obviamente, quem procura imóvel para morar com dois ou três quartos subiu a régua de preço ou passou a buscar apartamento no mercado de usados. 

A metragem confirma o movimento dos compactos. Entre os imóveis de um dormitório em oferta no Recife, 96% têm até 44 m², com média de 30 m². De maneira geral, nos lançamentos do trimestre, 89,6% das unidades têm até 50 m², e mesmo entre os dois quartos, 75% têm até 49 m².

O médio padrão, que historicamente abrigava o dois quartos da classe média, encolheu em todas as frentes. Nos lançamentos de Recife e RM, passou de 38,7% dos empreendimentos em 2021 para 17,4% em 2026 (dados até setembro). Em unidades lançadas, a fatia caiu de 29,3% para 9,8%, e no 3º trimestre foi de 28,3% para 4,7% em um ano. Nas vendas, são 19,5% das unidades em 2026, contra 38,0% em 2021, e 16,4% no 3º trimestre, ante 18,6% um ano antes. Na oferta final, a fatia recuou de 40,8% para 31,5% em doze meses. No mesmo intervalo, o compacto saiu de 24,8% para 49,3% dos empreendimentos lançados.

Preço sobe mesmo com mais oferta

O m² do um dormitório no Recife atingiu R$ 16.982, alta de 14% sobre os R$ 14.906 de um ano antes. Em três anos, a valorização é de 39% (de R$ 12.252), ante 18% da média geral da cidade. O dois quartos, no mesmo período de 12 meses, subiu 2%. Na Região Metropolitana, o um dormitório custa R$ 14.804 por m², cerca de 15% menos que na capital.

A oferta final do Recife soma 6.348 unidades, 9% a mais que um ano antes, e 44,7% delas foram lançadas em 2026. Os compactos respondem por 23,9% desse total. Ainda assim, os preços avançam, pressionados pela margem menor das construtoras, com alta de insumos, e pelo aquecido mercado de locação residencial.

Onde o produto gira mais

O índice de velocidade de vendas (IVV) do Recife foi de 28,1% no trimestre. Os imóveis de 36 a 40 m² tiveram IVV de 35,4% e os de 41 a 50 m², de 39,0%. Juntas, essas faixas responderam por 63% das vendas líquidas. Os de até 35 m² giraram menos, com IVV de 24,3%.

Para quem mira a locação, o compacto reúne ticket de entrada menor que o de um três quartos (R$ 946 mil, em média) e demanda diversificada: estudantes, profissionais liberais, contratos mais longos e opções de short stay na capital. A faixa de 36 a 50 m² concentra a melhor liquidez. Com o m² próximo de R$ 17 mil, porém, o retorno passa a depender do aluguel que o imóvel consegue sustentar, e localização e metragem, além de uma gama de serviços que precisam ser ofertadas no empreendimento, pesam mais na decisão.

 

 

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