Primeira mulher eleita governadora do estado, Raquel foi também a primeira com carreira política interiorana a chegar ao Palácio das Princesas
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Apesar de Marília Arraes (PDT) ter dominado as intenções de voto até o final do primeiro turno, a eleição de 2022 em Pernambuco terminou decidida pelo interior do estado com a vitória da atual governadora Raquel Lyra (PSD), pouco conhecida na Região Metropolitana, onde precisou ser apresentada aos eleitores durante a campanha pelos deputados Priscila Krause (PSD) e Daniel Coelho (PSD), ambos bem votados na capital. Nem mesmo a presença de Lula (PT) em uma histórica caminhada pelo centro do Recife ao lado de Marília há poucos dias do segundo turno, fez efeito. No resultado total Raquel terminou com 58,70% dos votos do estado contra 41,30% de Marília. No Recife em particular a atual governadora teve 65,32%, superando o próprio Lula que só chegou a 54,3%.
Primeira mulher eleita governadora do estado, Raquel foi também a primeira com carreira política interiorana a chegar ao Palácio das Princesas. Antes dela o único exemplo que se tem é o de Nilo Coelho, de Petrolina, que foi escolhido governador mas na eleição indireta de 1966 à qual só concorreram candidatos da Arena. Após a redemocratização, quando o povo foi chamado a se manifestar, todos os governadores foram forjados na luta política da capital com destaque para os mais recentes : Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos, Eduardo Campos e Paulo Câmara.
Interior deu impulso à capital
Mas, mesmo bem votada no Recife em 2022 e na própria Região Metropolitana, onde vivem 40% dos eleitores pernambucanos, Raquel Lyra vinha até a semana passada com enormes dificuldades de ultrapassar nas pesquisas o ex-prefeito João Campos (PSB) que, com alta popularidade na capital, repetia sua grande aceitação no Grande Recife. O panorama só começou a mudar na última quinta-feira quando, na mais recente pesquisa do Datafolha, ela apareceu com 48% das intenções de voto contra 43% de Campos, embora ainda não tenha conseguido ultrapassá-lo no Recife.
Essa virada de chave no estado, porém, fez crescer no meio político a convicção de que não será surpresa se a eleição de 2026 repetir a tendência de 2022 onde o interior exerceu um protagonismo que nunca tinha tido e o Grande Recife acabou acompanhando essa tendência. Naquele ano, com o enfraquecimento do PSB, há 16 anos no poder, dois políticos do interior, a própria Raquel e Miguel Coelho (UNIÃO), deixaram seus mandatos de prefeitos de Caruaru e Petrolina para concorrer ao Governo do Estado tendo ela terminado em 2º lugar no primeiro turno e ele em 5º lugar – com mil votos a menos que Danilo Cabral, do PSB, que terminou em 4º lugar.
Prefeitos foram importantes
-“ Raquel agiu certo quando, sentindo a popularidade do adversário na RMR, cuidou em se fortalecer no interior conseguindo atrair mais de 150 prefeitos para sua campanha”- afirmou a este blog um deputado estadual governista procedente do interior. Segundo ele, o apoio interiorano calcado em obras em todos os municípios deu tranquilidade à governadora para aguardar o momento de se fortalecer na Região Metropolitana. “Quero desafiar alguém a me apontar um único município do estado que não tenha obras e apoio deste Governo”- afirmou ela recentemente em um evento recheado de prefeitos em pleno Palácio das Princesas.
Segundo este mesmo deputado o apoio que a governadora conseguiu desses prefeitos é diferente do que tiveram Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos, Eduardo Campos e Paulo Câmara quando esses líderes eram expressos em números pelo Palácio e não em atendimento efetivo, o que acabava levando prefeitos tidos como aliados a mudar de lado, de acordo com os ventos, e deixar os governadores na mão. Arraes foi vítima disso quando contava com mais de 100 prefeitos e foi derrotado por Jarbas com uma diferença de 1 milhão de votos. Da mesma forma Jarbas, quando deixou o Governo e lançou Mendonça Filho como seu candidato, viu dezenas de prefeitos aliados deixarem o comitê de Mendonça para apoiar Eduardo Campos quando ele passou para o segundo turno e acabou vencendo o pleito de 2006.
A visão científica
A primeira demonstração de força no interior foi dada pela governadora quando em um único dia filiou 70 prefeitos ao seu novo partido, o PSD, no início de 2025. De lá para cá, mesmo precisando caminhar na RMR onde tem anunciado e iniciado muitas obras, Raquel não descuida do interior. Dois prefeitos metropolitanos que a apoiam acham que ela já deveria estar priorizando o Grande Recife mas não têm sido ouvidos. Na semana passada referindo-se ao assunto Grande Recife com uma pessoa próxima ela respondeu: “É preciso respeitar o meu tempo”, deixando claro que vai chegar a vez da Metropolitana mas no tempo dela.
O cientista político Felipe Ferreira Lima diz que “era pré-requisito em Pernambuco os pré-candidatos a governador conseguir juntar forças e apoio na Região Metropolitana para só depois ir para o interior. De 2022 para cá – afirma – essa lógica mudou um pouco com o aparecimento de múltiplas candidaturas, então a chance de alguém do interior emplacar, como emplacou eram maiores. Raquel inverteu a lógica. Considerou primeiro o Sertão, Agreste as Matas para depois vir com lastro do interior atuar na Metropolitana”. Ele acha que isso aconteceu a partir do início de 2025 “quando com obras avançadas no interior ela avançou nos investimentos que lhe garantissem notabilidade Metropolitana e está se dando bem”.
Já a cientista política Priscila Lapa entende que “algumas tendências de 2022 tendem a se confirmar em 2026, como esse maior protagonismo do interior na agenda da eleição. É óbvio que o peso da RMR permanece inegável, pelo tamanho do eleitorado, mas as questões que abrangem as demandas interioranas são cada vez mais relevantes no discurso dos candidatos até pelo impacto dos investimentos feitos no Sertão, Agreste e Matas sobre o desenvolvimento do estado como um todo. Polos regionais como Petrolina, Serra Talhada e Caruaru ganham nova dinâmica econômica e, consequentemente, relevância política, isso não se pode negar”.



