o que aproxima lulistas e bolsonaristas, segundo a Quaest

o que aproxima lulistas e bolsonaristas, segundo a Quaest

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A polarização política que marca a disputa presidencial não impede que lulistas e bolsonaristas compartilhem expectativas semelhantes sobre alguns dos principais temas do debate nacional. Recortes da mais recente pesquisa da Quaest mostram aproximações em áreas como segurança pública, distribuição de renda e até na relação com decisões da Justiça.

Em entrevista ao videocast Cena Política, do JCPlay, o analista sênior de política da Quaest, João Paulo Dellasta, afirmou que os dados mostram pontos de aproximação entre os dois polos, apesar da forte identificação política que continua separando os eleitores. Para ele, as candidaturas que disputam a Presidência precisarão apresentar respostas para demandas que hoje atravessam essa divisão.

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Confira a entrevista abaixo:

A pesquisa apresentou aos entrevistados 11 afirmações sobre o perfil desejado para o presidente e os principais desafios do país. De acordo com Dellasta, combate à violência, distribuição de renda e experiência política aparecem entre os pontos de maior convergência no conjunto do eleitorado.

“Mais do que falar sobre candidatos, cenários de intenção de voto, nós perguntamos 11 teses. E, com isso, percebemos que existe uma união do eleitorado em três temas, principalmente”, explicou.

Segurança e renda atravessam os dois polos

A convergência mais ampla aparece na segurança pública. Entre os lulistas, 89% concordam totalmente que o Brasil precisa de um presidente duro no combate à violência. Entre os bolsonaristas, o percentual chega a 96%.

Embora a preocupação com a segurança tenha maior peso entre eleitores identificados com a direita, Dellasta ressaltou que o tema não está restrito a esse campo político. Na avaliação do analista, qualquer candidatura competitiva precisará apresentar respostas para a questão.

O movimento também aparece, em sentido inverso, na distribuição de renda, tema historicamente mais associado à esquerda. A afirmação de que o presidente precisa lutar por uma melhor distribuição de renda entre ricos e pobres recebe concordância total de 88% dos lulistas e 74% dos bolsonaristas.

“Todas as candidaturas, todos os candidatos e postulantes precisam fornecer respostas para o combate à violência e para os dilemas de desigualdade social que o Brasil enfrenta. Isso é uma questão que está posta para as candidaturas que tentam agora alçar a Presidência da República. Nenhum candidato vai conseguir fugir desses temas”, afirmou.

Os números não significam, necessariamente, que lulistas e bolsonaristas defendam as mesmas soluções para os problemas. A pesquisa mede a adesão aos objetivos apresentados nas frases, enquanto propostas para segurança, políticas sociais, tributação e atuação do Estado continuam capazes de separar os dois campos.

Dellasta afirmou que essa diferença aparece quando a Quaest acompanha as preocupações prioritárias de cada segmento. Enquanto o eleitorado mais à esquerda demonstra maior preocupação com questões sociais, a segurança pública ganha peso maior entre aqueles posicionados à direita.

“O eleitorado mais à esquerda tem essa maior preocupação com a pauta social. O eleitorado mais à direita é o que puxa aquele elemento sobre a segurança pública”, disse.

Eleitores querem combinar esquerda e direita

Outra convergência aparece quando os entrevistados são questionados sobre a necessidade de um presidente que consiga “unir o que é bom da esquerda e o que é bom da direita”.

A afirmação recebe concordância total de 65% dos lulistas e 55% dos bolsonaristas. Para Dellasta, o resultado indica a existência de um desejo por uma gestão que reduza a divisão política, mesmo entre eleitores que mantêm identificação forte com um dos lados.

Na avaliação do analista, entretanto, essa disposição ainda aparece mais como uma expectativa abstrata do eleitorado do que como apoio consolidado a uma candidatura capaz de representar uma alternativa aos dois principais polos.

“Existe esse sentimento, essa necessidade de fugir da polarização, de a gente conseguir uma gestão que acabe unificando, pacificando o país, mas, dentre os candidatos que são oferecidos, o eleitor não encontra plenamente essa resposta”, afirmou.

A identificação política continua, portanto, sendo um dos elementos centrais para compreender o comportamento do eleitor. A Quaest divide esse universo entre lulistas, eleitores de esquerda não lulistas, independentes, eleitores de direita não bolsonaristas e bolsonaristas.

Segundo Dellasta, o cenário forma três blocos mais amplos: cerca de um terço do eleitorado situado à esquerda, outro terço à direita e um grupo de independentes que completa a divisão.

Relação com a Justiça preocupa

Entre as convergências identificadas, uma das que mais chama atenção da Quaest está relacionada aos limites institucionais do poder presidencial.

Questionados sobre a afirmação de que o Brasil precisa de um presidente que “mude tudo, mesmo que ele precise passar por cima das decisões da Justiça”, 46% dos lulistas e 45% dos bolsonaristas concordam totalmente.

Dellasta avaliou que a proximidade entre os dois grupos nesse ponto é motivo de preocupação por revelar uma disposição semelhante, nos polos mais identificados politicamente, de aceitar que o presidente ultrapasse decisões judiciais para implementar mudanças.

“Esses dois grupos, os lulistas e os bolsonaristas, metade deles tem essa opinião concordante. Eles são favoráveis a isso: que um presidente venha, mude tudo, mesmo que passe por decisões da Justiça, o que é preocupante para a nossa democracia”, afirmou.

O comportamento contrasta com o dos independentes, que, segundo o analista, demonstram posições mais moderadas nesse tipo de questão. O grupo também aparece como o segmento com maior abertura para avaliar candidaturas fora dos dois polos que hoje concentram a disputa.

Para Dellasta, esse eleitorado tende a tomar decisões de maneira mais pragmática e pode ser influenciado pelos temas que estiverem no centro do debate político até a votação.

“O eleitor independente é muito pragmático. Ele vota pelas principais questões que estão no momento. Economia importa, temos a segurança pública. Essas notícias que têm surgido vão definir para onde vai esse eleitor”, disse.

A rejeição aos candidatos também deverá ter peso nessa escolha. Segundo o analista, a abertura dos independentes para alternativas não significa que uma terceira candidatura já tenha conseguido ocupar de maneira consolidada esse espaço.

Retrato pode mudar até a eleição

Dellasta ressaltou durante a entrevista que os resultados devem ser entendidos como uma fotografia do atual momento político. A pesquisa foi realizada no início de setembro, e novos acontecimentos ainda podem alterar tanto as prioridades dos eleitores quanto a configuração da disputa presidencial.

O analista destacou que a competição entre os principais candidatos se tornou mais acirrada ao longo dos últimos levantamentos e evitou projetar que as convergências identificadas agora permanecerão nos mesmos patamares até o dia da votação.

Ainda assim, os cruzamentos ajudam a mostrar que a divisão entre lulismo e bolsonarismo não produz automaticamente posições opostas em todos os temas. Em algumas das questões colocadas pela Quaest, os dois polos compartilham preocupações e expectativas semelhantes, apesar de continuarem separados por identidades políticas consolidadas e pela disputa eleitoral.

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