Temor fiscal com Lula 4 pode impulsionar reversão da queda de juros

Temor fiscal com Lula 4 pode impulsionar reversão da queda de juros


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O mercado financeiro reagiu com forte estresse ao resultado das eleições, registrando queda no Ibovespa, disparada do dólar e salto na curva de juros futuros. Diante da surpresa das urnas e do aumento do risco fiscal, a incerteza pressiona a inflação e ameaça o rumo da política monetária. Na entrevista a seguir, Diogo Almeida, economista-chefe da Pequod Investimentos, analisa a reação dos ativos, os impactos na renda variável e fixa, e como a falta de controle das contas públicas pode forçar o Banco Central a interromper a queda ou até voltar a subir os juros.

JC-  O mercado abriu em forte estresse pós-eleição. Essa reação já era esperada nessa proporção?

Diogo – É, o movimento de queda dos preços dos ativos, isso sim é esperado e é a visão inversa ao resultado da eleição, né? Acho que dá para falar que o resultado em si foi uma surpresa enorme, qualquer lado que você olhe. A partir das próprias pesquisas, um universo muito pequeno indicava a possibilidade de reeleição do presidente Lula. O mercado acompanha muito também os chamados mercados preditivos (Polymarket, etc.). E você chegou na véspera da eleição, até no dia mesmo, com uma probabilidade em torno de 80% ou até acima para a vitória da oposição, né? Então, à medida que estava muito consolidada essa perspectiva de um resultado eleitoral que não se confirmou, consequentemente os preços dos ativos reagiram expressando essa surpresa. Por outra ótica, já estava muito no preço dos ativos brasileiros a perspectiva de uma mudança de política econômica diante da não materialização desse cenário. Então os preços estão corrigindo.

JC – Na renda variável, quais setores estão menos expostos a esse movimento?

Diogo – A exportadora se beneficia na primeira linha, porque exporta em dólar e o dólar passa a valer mais reais. A Vale está subindo em torno de 6%, e a Suzano está subindo 10% (até a tarde de 26.10), justamente porque os resultados delas não estão atrelados à performance da economia do nosso PIB aqui na economia doméstica. Mas, passado esse movimento inicial, o que eu visualizo é que devemos voltar a viver mais ou menos o que víamos antes desse período eleitoral, ou desde o resultado do primeiro turno, que foi quando entrou mais nos preços a perspectiva de mudança. Antes, havia uma predileção por empresas que chamamos de utilities, voltadas para concessões de serviços e infraestrutura — como saneamento (Sabesp) e elétricas. São empresas menos cíclicas, que dependem menos do nosso crescimento. Por outro lado, o varejo depende muito da saúde do consumidor brasileiro e da saúde financeira das famílias. O mercado tende a voltar a direcionar para uma carteira mais defensiva, que envolve esses setores de utilities que prestam serviços básicos e essenciais para a população, que você vai continuar usando independentemente de o salário estar subindo ou descendo. Esse tipo de empresa tende a nos proteger um pouco mais em períodos mais incertos e de juros altos.

JC – Sem sinalizações de rigor fiscal até agora, o que o governo precisaria fazer de concreto para acalmar o mercado?

Diogo – A gente tem uma fragilidade enorme na nossa economia, que é exatamente a sustentabilidade das contas públicas, a perspectiva ou a ausência da perspectiva de estabilizar o endividamento público. Isso a gente carrega já há algum tempo e foi intensificado no período eleitoral, em particular entre o primeiro e segundo turno, quando foram anunciadas uma série de medidas expansionistas, de mais gastos. Cálculos preliminares apontam que, somente nas semanas entre os turnos, foram gastos da ordem de R$ 350 bilhões contratados. Olhando para frente, fica evidente que esse descompasso ou desequilíbrio nas contas públicas não tem sido resultado de uma arrecadação mais fraca. Do lado da receita, o que observamos nos últimos anos foi um crescimento bastante expressivo, mais rápido que a inflação, impulsionado por mudanças em tributos, aumentos ou criação de novos impostos. O desequilíbrio não é resultado de receita abaixo do esperado, pelo contrário, a receita está muito forte; o problema é que as despesas aceleraram de uma forma mais importante. Qualquer medida no sentido de controle das despesas de forma importante e transparente seria um pilar básico para reancorar as expectativas com relação à política econômica e fiscal.

JC – De forma prática, quais medidas de corte de gastos poderiam ser adotadas?

Diogo A  – Olhando para um período até mais longo, essa receita de que os governos de Lula entregaram foi baseada em acelerar o fiscal, gastando mais via transferência para as famílias e endividamento. Mas hoje você parte de uma posição em que os gastos e o endividamento público já estão muito altos, então ficamos sem muita margem de manobra para voltar a estimular o crescimento econômico usando o mesmo canal de antes. Tem sido ventiladas algumas possibilidades que favoreceriam um ajuste do lado do corte de despesa, e não somente de arrecadação. Uma coisa em particular que dificulta muito a execução do orçamento público no Brasil é que uma parte enorme dos gastos é obrigatória, com o Executivo sem margem de manobra, pois cresce junto com a receita. A necessidade de desvincular parte dos gastos, particularmente de saúde e educação, para ter mais discricionariedade (poder de gastar ou não) seria muito bem recebida pelo mercado.

Também se fala em corte de gasto tributário — como estabelecer tributação sobre o rendimento de ativos financeiros que hoje são isentos, por exemplo, a LCA —, que tecnicamente é um corte de gasto tributário, mas na prática seria um aumento de receita. Além disso, talvez olhar para a racionalização de benefícios sociais, eliminando sobreposições (como receber Bolsa Família e Auxílio Gás ao mesmo tempo). A dificuldade é que, diferentemente de 2022 quando Lula venceu com uma ampla coalizão de centro-esquerda, nesta eleição o primeiro turno gerou uma frustração enorme na votação do governo, e a vitória no segundo turno veio impulsionada por medidas de cunho mais populista, sem uma agenda estritamente afinada com o PT ideológico tradicional, o que pode gerar menos pressão para mudar a política.

JC-  A própria pressão do mercado e do dólar sobre a inflação pode forçar o governo a buscar um diálogo mais amplo?

Diogo – Exatamente. Eu acho que a própria reação do mercado serve como uma fonte de pressão teórica. Pega o câmbio: a desvalorização e depreciação que o Real está passando tem um efeito que paga todo mundo, que é a pressão inflacionária. A gente tem que lembrar do ambiente externo: no Oriente Médio, o petróleo está em níveis altíssimos, acima de 110 dólares, o que provoca pressão inflacionária. Com o Real perdendo preço, isso coloca mais pressão na inflação. Racionalmente, os políticos não gostam de inflação porque ela erode a popularidade deles. A bolsa caindo afeta uma parcela menor, mas os efeitos inflacionários da depreciação do Real afetam muita gente, em particular o eleitor que deu a vitória ao PT, então isso pode ser um fator de pressão.

JC – Até onde a pressão do câmbio pode ir sem comprometer o controle da inflação?

Diogo –  Eu gosto de olhar para trás para responder essa pergunta. Não muito tempo atrás, no final de 2024, tivemos um período de bastante tensão pós-eleições municipais, com o anúncio de um pacote de corte de gastos que frustrou os agentes econômicos, e foi quando vimos o dólar chegar a R$ 6,20, com os juros subindo muito. E como o país acalmou isso? Não foi via redirecionamento da política fiscal, mas com atuação decisiva da política monetária. Em outras palavras, o Banco Central subiu muito os juros. A perspectiva de mercado era que a Selic terminasse aquele ano em torno de 9%, mas caminhamos para juros que atingiram 15% no início de 2025. Essa alta de juros foi vista como a âncora para estabilizar as condições financeiras do país, permanecendo alta por um período prolongado, e só no início deste ano o Banco Central começou a cortar 25 pontos básicos, estando ainda em 13,75% (bastante alta).

Isso para dizer que, caso de fato não venha uma sinalização mais crível de que será perseguido um ajuste fiscal mais importante, o Banco Central mais uma vez será forçado a tentar estabilizar os fluxos através de juros mais altos. Já começam as conversas e revisões de cenário considerando que, talvez já na próxima reunião do Copom na semana que vem, o Banco Central nem corte mais os juros.

JC – Você acredita que o Banco Central deve pausar os cortes já na próxima reunião ou podemos ver uma volta das altas?

Diogo – Uma variável importantíssima vai ser o anúncio de quem será o ministro da Fazenda/Economia. Em relação à política monetária, diante de um quadro inflacionário desafiador — e lembrando que globalmente os bancos centrais enfrentam muita pressão inflacionária pelo petróleo —, o Banco Central já havia sinalizado antes das eleições que talvez fosse necessário fazer pausas para observar o espaço de controle. Com a desaceleração evidente do ritmo de crescimento do PIB aqui no Brasil, ele continuou cortando, mas agora seria muito justificável ele parar enquanto se elucidam essas dúvidas sobre a política econômica. Na última reunião já estava telegrafado um novo corte, mas o que se fala agora é que, se ele não parar agora, quase com certeza parará na reunião de dezembro.

O Banco Central tem a variável do movimento do dólar: embora não tenha uma meta para o câmbio, o dólar gera uma pressão inflacionária importante que tecnicamente justificaria uma pausa. A discussão atual é se vamos pausar agora ou em dezembro; ainda não se fala de retomada de alta, mas eu acho que não dá para descartar essa possibilidade caso de fato não haja contribuição da agenda fiscal.

JC – Com a alta projetada para os juros, como o investidor deve se posicionar na renda fixa agora?

Diogo – Vou dar só um passo atrás. Há um risco: uma forma de controlar contas públicas, dada a fragilidade fiscal, é através de uma inflação um pouco mais alta, que corrói um pouco do endividamento público. É evidente que estamos numa situação em que a inflação pode ser um pouco mais alta nos próximos anos — não num cenário catastrófico de hiperinflação, mas acima da média sistematicamente. Quando você vai para títulos pré-fixados, você não se protege de um cenário de inflação rodando mais alto; você pode ter um ganho nominal, mas se o poder de compra não andar junto, você termina numa situação pior.

É muito difícil pensarmos que teremos um regime de juros baixos, ou seja, é difícil pensar numa Selic abaixo de 10%. Nesse cenário, a renda fixa sem dúvida permanece com uma atratividade importante, e dentre elas, o pós-fixado sem dúvida (que acompanha as variações da Selic) é um porto seguro importante para qualquer portfólio.

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