Informações do JC
As motocicletas configuram atualmente – e novamente – o principal vetor de mortalidade no trânsito brasileiro, respondendo por mais de 40% das mortes no ano de 2024 na maioria dos estados brasileiros. E mais: são os aplicativos de transporte por motos – deliverys e, principalmente Uber e 99 Moto – que estão puxando esse crescimento.
A constatação é, mais uma vez, do Atlas da Violência 2026, que pelo segundo ano consecutivo incluiu estudos e análises sobre a sinistralidade e mortalidade no trânsito brasileiro, cada dia maiores. O estudo é realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
O Atlas da Violência 2026 mostra que as motocicletas são responsáveis por 41,6% dos óbitos viários totais em 2024. Entre 2019 e 2024, as mortes envolvendo esse modal cresceram 38%, saltando de 11.182 para 15.459 mortes. Esse resultado reflete uma mudança estrutural profunda, visto que no início dos anos 2000 a participação das motos na mortalidade do trânsito era inferior a 5%.
O estudo também destaca a consolidação das motocicletas como o segmento de maior risco no trânsito ao registrar um aumento de 13.477 para 15.459 óbitos entre 2023 e 2024. Foi o modal que apresentou o maior crescimento absoluto no período, com 1.982 mortes adicionais. Apesar de o maior aumento percentual ter ocorrido nas mortes envolvendo caminhões (30,2%), o que, na visão dos pesquisadores, pode sinalizar uma possível deterioração na segurança do transporte de cargas. O ônibus, pontualmente o rodoviário, foi outro modal que teve um aumento notável no período, de 28,3%.
MOTO COMO INSTRUMENTO DE TRABALHO, SEM REGRAS E POUCO FISCALIZAÇÃO

O Atlas da Violência 2026 faz uma relação direta com a expansão da economia promovida pelos aplicativos, que alterou a mobilidade urbana, consolidando a motocicleta como um instrumento central de trabalho e sobrevivência para parcelas vulneráveis da população.
Para os pesquisadores, a pressão por produtividade, jornadas exaustivas e a ausência de proteção social transformaram os entregadores em um dos grupos mais expostos ao risco letal das motos. E o impacto é grande e maior no Norte e Nordeste brasileiros. No Piauí, essa crise é ainda mais evidente, com as motocicletas protagonizando 72,7% das fatalidades viárias registradas no estado. Em Pernambuco, as motos respondem por mais de 59% das mortes no trânsito.

O Espírito Santo é o único estado acima da média nacional que não está localizado nas regiões Norte e Nordeste. Em contrapartida, o Rio Grande do Sul (24,80%) apresenta o cenário menos crítico nessa série.
“Isso indica que, embora se trate de um desafio nacional, a participação dos sinistros com motocicletas em relação ao total de óbitos em sinistros no transporte terrestre é profundamente influenciado por fatores regionais, como a composição da frota local, a precariedade da fiscalização ou a ausência de alternativas de mobilidade segura nessas UFs”, alertam os pesquisadores.
PROPOSTAS PARA MELHORAR CENÁRIO
Para mitigar esse cenário, o Atlas propõe uma agenda de políticas públicas que inclui – antes de mais nada – a redução da velocidade das ruas e avenidas do País, seguida de melhorias na infraestrutura e o fortalecimento do transporte público coletivo.
Outro ponto destacado é a necessidade de medidas regulatórias e a efetiva aplicação de recursos do Funset (Fundo Nacional de Segurança no Trânsito) para educação no trânsito. Os pesquisadores entendem que só assim será possível reverter a tendência de alta na letalidade. Além disso, defendem a criação de um Órgão Nacional de Segurança dos Transportes para coordenar investigações independentes e induzir melhorias sistêmicas na segurança viária nacional.



