Falta de infraestrutura para pedalar penaliza ainda mais mulheres e crianças no Grande Recife, confirma estudo

Falta de infraestrutura para pedalar penaliza ainda mais mulheres e crianças no Grande Recife, confirma estudo

Omissão do poder público transforma o pedal feminino e o transporte de dependentes em um exercício diário de sobrevivência e exclusão social

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O levantamento realizado pela Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) que apontou que o ciclista da Região Metropolitana do Recife é resiliente e corajoso por correr riscos diários no trânsito devido à falta de infraestrutura segura para pedalar, tem um recorte ainda mais cruel quando o foco são as mulheres e crianças. A nova rodada da pesquisa Contagem de Ciclistas 2026 constatou a desigualdade de gênero no espaço urbano, punindo severamente as ciclistas que usam a bicicleta como transporte ou como modal de mobilidade familiar.

Quando o poder público falha em entregar ciclovias segregadas, as mulheres são as primeiras a serem empurradas para situações de perigo extremo ou para a invisibilidade. Tecnicamente, a presença feminina é o indicador mais preciso da qualidade e segurança de um ambiente viário – isso é fato e serve como parâmetro em diversas áreas, não só na mobilidade urbana.

Os dados da pesquisa da Ameciclo – realizada em 12 municípios da RMR, excluindo o Recife e Araçoiaba, entretanto, expõem um abismo entre as cidades: enquanto em Ipojuca (20%) e na Ilha de Itamaracá (18%) a bicicleta é integrada à vida comunitária, eixos rodoviários hostis como Moreno (2%) e Camaragibe (2,5%) indicam ambientes que expulsam as mulheres das ruas. Em Jaboatão dos Guararapes, o volume absoluto de 764 viagens femininas prova que existe uma demanda massiva que hoje usa a bike sob condições de alto risco, forçada a adotar estratégias de sobrevivência para garantir o deslocamento básico, como pedalar sobre calçadas e na contramão.

Contagem de ciclistas realizada pela Ameciclo mostra que, mesmo sem ciclovias e em vias que estimulam a velocidade, a bicicleta segue sendo usada e movimentando a economia – Renato Ramos/JC Imagem

GUGA MATOS/JC IMAGEM

Ciclista da RMR é resiliente, corajoso e corre risco diário por falta de infraestrutura. Mulheres e crianças sofrem mais – GUGA MATOS/JC IMAGEM

A exclusão, segundo a pesquisa, não é uma falha de conduta das ciclistas, mas um reflexo direto de um desenho urbano que não garante proteção. Onde a infraestrutura é residual ou incompleta, o estudo registra que o ciclista é jogado para a contramão ou para as calçadas como única forma de evitar sinistros de trânsito num tráfego motorizado e agressivo. Para as mulheres, essa insegurança assusta ainda mais do que para os homens ciclistas.

Os municípios analisados foram: Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, São Lourenço da Mata, Paulista, Moreno, Abreu e Lima, Igarassu, Itapissuma, Ilha de Itamaracá, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca.

FALTA DE INFRAESTRUTURA COMPROMETE TAMBÉM A MOBILIDADE FAMILIAR


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Pesquisa da Ameciclo constata a força do uso da bicicleta nas cidades da RMR – Arte

A pesquisa constata que a bicicleta desempenha um papel social vital na RMR através das caronas, funcionando frequentemente como substituta de veículos motorizados para o transporte de famílias inteiras. Em Ipojuca, o índice de 7% de viagens com carona é o maior da rede, sendo a maioria composta por crianças. No entanto, o volume bruto em Jaboatão impressiona pela pressão urbana: em apenas um ponto, foram registradas 272 viagens com carona, das quais 115 eram mulheres sendo transportadas, reforçando o uso compartilhado do modal para o acesso a serviços essenciais.

Contudo, a baixa incidência de caronas em locais como Camaragibe e Abreu e Lima (2%) funciona como um alerta técnico grave. Os baixos índices em áreas de tráfego pesado e infraestrutura precária indicam que cuidadores e responsáveis — majoritariamente mulheres — evitam transportar seus dependentes por medo da morte e da violência viária. A bicicleta, que em Olinda e Itamaracá sustenta a economia através de cargueiras (23%), nas outras cidades tem uma participação bem menor.


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Pesquisa da Ameciclo constata a força do uso da bicicleta nas cidades da RMR – Arte

As cidades com os maiores índices de participação feminina no total de viagens de bicicleta são Ipojuca, com 20% – que tem uma ampla rede ciclável -, e a Ilha de Itamaracá, com 18%. São números tecnicamente significativos porque, como reforça a pesquisa, a presença de mulheres pedalando é considerada um dos indicadores mais precisos da qualidade e hospitalidade do ambiente urbano.
Em Jaboatão dos Guararapes, a participação feminina é de 15% (embora registre o maior volume absoluto da rede, com 764 viagens femininas); em Itapissuma é de 13% e, em Paulista, de 12%.

Relatório Das Contagens RMR – 2026 by Roberta Soares

Em contrapartida, o estudo revela que municípios com vias mais perigosas e pouca infraestrutura segura, como Moreno (2%) e Camaragibe (2,5%), apresentam as menores taxas de participação de mulheres, evidenciando que a percepção de risco atua como uma barreira de gênero.

O levantamento faz parte do Projeto de Fortalecimento da Produção de Dados sobre a Mobilidade por Bicicleta na RMR, financiado pelo governo de Pernambuco com recursos de emenda parlamentar de autoria da deputada estadual Dani Portela. A proposta é que o relatório subsidie a reformulação do 1º Plano Diretor Cicloviário da RMR (PDC/RMR), elaborado ainda em 2014. 

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