Cotado para a Fazenda, Rafael Fonteles pode enfrentar as resistências que limitaram Haddad; caberá ao presidente sustentar as decisões do ministro.
por Igor Maciel
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Lula (PT) terá de contrariar uma parte influente do próprio partido para cumprir a promessa de fazer o melhor dos seus quatro governos. A dificuldade começa na escolha de quem comandará a economia e na autoridade que essa pessoa receberá para trabalhar.
Os grupos que resistiram às iniciativas de Fernando Haddad (PT) continuam próximos do presidente falando as mesmas bobagens de sempre, participam das decisões e se consideram autorizados a determinar quais medidas podem sequer entrar em discussão. Alguns já trabalham contra a possibilidade de Rafael Fonteles (PT), governador do Piauí, assumir o Ministério da Fazenda.
Antes da formação da equipe, portanto, Lula terá de decidir quanto poder pretende conceder aos aliados que ajudaram a limitar seu terceiro mandato. Conhece todos eles. Conhece suas exigências. E tem responsabilidade pelo espaço que ocupam.
Repetição
Haddad oferece um precedente suficientemente claro. O ministro enfrentou resistências dentro do PT ao tentar organizar as contas públicas, enquanto recebia a cobrança pelos resultados da economia. Precisava negociar com o Congresso, convencer o presidente e ainda administrar as objeções de um partido que frequentemente tratava concessões à realidade fiscal como desvios ideológicos.
Isso não absolve Haddad de seus erros. Também não permite apresentar Lula como espectador de uma disputa entre o ministro e os dirigentes partidários. O presidente tinha autoridade para definir uma orientação e sustentá-la. A disposição para evitar conflitos com os seus ajudou a prolongar a incerteza sobre o que o governo efetivamente pretendia fazer.
Resistência
Fonteles chega a essa discussão com uma experiência que merece atenção. É petista, governa o Piauí e tem recorrido a concessões e parcerias público-privadas para ampliar investimentos. Defende o equilíbrio das contas como condição para o Estado financiar suas entregas. Sua eventual indicação à Fazenda permitiria discutir quanto dessa orientação Lula estaria disposto a incorporar ao próximo mandato.
Gleisi Hoffmann (PT) e Edinho Silva (PT) estariam entre os que resistem à indicação do governador. O próximo ministro poderá propor medidas que desagradem à cúpula partidária? Terá apoio para executá-las?
A filiação de Fonteles parece insuficiente para tranquilizar esses setores. Haddad sempre foi do PT e sempre foi perseguido pela cúpula do partido quando tentava ser responsável com o dinheiro do pagador de impostos.
Conveniência
Guilherme Boulos (PSOL), que passou boa parte da campanha de Lula sendo escondido para não atrapalhar no segundo turno, resolveu dar uma “aula” sobre o resultado eleitoral: “Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição”.
É uma arrogância impressionante para quem teve uma eleição vencida no aperto. Lula esteve perto de perder e precisou reunir votos de brasileiros que rejeitavam o adversário, muitos deles cansados com seu governo. Boulos fala como se o país tivesse aprovado por aclamação o terceiro e péssimo governo Lula.
Ou ele tem uma dificuldade enorme de compreender a realidade ou faz isso de caso pensado. Se compreende o tamanho do aperto e mesmo assim vende a vitória como autorização para impor sua agenda, está colocando a conveniência do próprio grupo acima do futuro do Brasil.
É muito cômodo distribuir certificados de sensibilidade social enquanto o pagador de impostos recebe a conta. Quem ocupa o governo tem obrigação de apresentar soluções e responder pelas consequências do que defende. Boulos prefere tratar como ignorante quem cobra essa responsabilidade.
Autoridade
Lula terá de responder a essas questões ao montar o ministério. Convidar Fonteles, ou qualquer outro nome, resolve apenas uma parte da tarefa. O futuro ministro precisará saber se terá respaldo quando suas propostas provocarem reação entre os aliados mais próximos do presidente.
O quarto mandato será conduzido por Lula. As concessões ao partido também serão escolhas dele. Nas conversas para formar a equipe, será necessário definir até onde poderá ir o responsável pela Fazenda e o que acontecerá quando Gleisi, Edinho, Janja ou Boulos discordarem.
Para dar certo, o novo ministro da Fazenda precisa ter autorização expressa para mandar os aliados “às favas” caso seja necessário.


