Com até 85% dos casos sem identificação no Brasil, o desafio é reconhecer uma doença que raramente segue o “manual”
Ela aparece como um cansaço que não melhora, uma anemia que insiste em voltar, um desconforto abdominal que nunca se resolve por completo. Para muitos pacientes, os sintomas vão se acumulando ao longo dos anos, e também as dúvidas.
Até que, em algum momento, surge um diagnóstico que reorganiza toda a história: doença celíaca.
O problema é que esse momento costuma demorar mais do que deveria. Estima-se que até 85% dos brasileiros com a condição ainda não tenham sido diagnosticados. Embora afete cerca de 1% da população mundial, segundo a OMS, a doença segue passando despercebida, inclusive dentro dos consultórios.
Na prática, isso significa gente convivendo por anos com sintomas sem explicação clara, tratando partes do problema, mas não a causa.
Nem sempre é sobre o intestino
Um dos principais entraves para o diagnóstico está na forma como a doença se manifesta. A versão mais conhecida, com diarreia crônica, perda de peso e distensão abdominal, é só uma parte da história.
“Muitos pacientes não apresentam sintomas digestivos clássicos. Às vezes, o que chama atenção é uma anemia persistente, fadiga ou alterações ósseas”, explica a gastroenterologista e hepatologista Elze Maria Gomes Oliveira.
Há casos que envolvem infertilidade, alterações neurológicas ou perda de massa óssea sem causa aparente. São sinais que, isoladamente, nem sempre apontam para o intestino, e menos ainda para o glúten.
O resultado é um atraso que pode chegar a uma década. Nesse intervalo, a inflamação intestinal continua ativa, silenciosa, abrindo caminho para complicações como desnutrição, deficiência de vitaminas, osteoporose precoce e até maior risco de linfoma intestinal.
Avanços no papel e a realidade fora dele
Em 2025, o Ministério da Saúde atualizou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da doença celíaca no SUS, com critérios mais claros para investigação e acompanhamento.
Mas, para quem vive a doença, a distância entre a diretriz e a prática ainda é perceptível.
A médica veterinária Nathália Secco, diagnosticada há seis anos, acompanha essas mudanças com atenção e senso crítico. “O Brasil avançou com as novas diretrizes, mas ainda está distante de países como a Itália, onde há políticas públicas mais estruturadas, apoio financeiro e até restaurantes preparados para atender celíacos”, afirma.
Ela lembra que, no dia a dia, o desafio vai além do diagnóstico. Manter uma dieta totalmente livre de glúten exige vigilância constante, da leitura de rótulos ao cuidado ao comer fora de casa.
O que não aparece no exame
Além das repercussões clínicas, há um impacto que não se mede em números.
“O tratamento exige uma dieta restrita para o resto da vida, e isso pode gerar ansiedade, especialmente em situações sociais”, afirma Elze.
Deixar de consumir glúten, presente em alimentos tão cotidianos quanto pão, massas e bolos, não é apenas uma mudança alimentar. É uma adaptação contínua que atravessa rotina, relações e qualidade de vida.
A doença celíaca é uma doença autoimune e sem cura, apesar de pesquisas em andamento, a exclusão total e permanente do glúten ainda é o único tratamento eficaz.
Diagnosticar é mudar a história
O Maio Verde, que marca a conscientização sobre a doença celíaca e tem no dia 16 sua principal data, reforça um ponto central: o diagnóstico ainda depende, em grande parte, da suspeita clínica.
Ampliar o olhar para além dos quadros clássicos pode encurtar um caminho que hoje ainda leva anos.
Porque, no fim, dar nome ao que o paciente sente não é só fechar um diagnóstico. É interromper uma trajetória de incertezas e permitir que, finalmente, o tratamento comece.
Viviane Secco 13997117256 [email protected] @vivianesecco.jornalista




