“Precisamos deixar de pagar pela doença e passar a pagar pela saúde”, defende o médico futurista Daniel Kraft

“Precisamos deixar de pagar pela doença e passar a pagar pela saúde”, defende o médico futurista Daniel Kraft


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SÃO PAULO – A medicina está diante de uma transformação que pode mudar não apenas a forma como doenças são diagnosticadas e tratadas, mas o próprio conceito de cuidado. Inteligência artificial, wearables, sensores, genômica, novos biomarcadores e análise contínua de dados já começam a deslocar a saúde de um modelo essencialmente reativo para uma abordagem mais preventiva, personalizada e preditiva.

Para o médico cientista norte-americano Daniel Kraft, uma das principais referências globais em inovação em saúde, essa mudança já está acontecendo. A discussão mais importante não é se a tecnologia vai fazer parte da medicina, mas como vamos incorporá-la. Para ele, o futuro não está no chamado “médico de IA” que substitui o profissional, mas em ferramentas capazes de ampliar sua capacidade, antecipar riscos e devolver tempo para aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente: escuta, presença, confiança e empatia.

Neste sábado (29), durante a terceira edição do Afya Summit, em São Paulo, Daniel Kraft apresenta a palestra “Estamos preparados para a medicina do futuro? Tecnologias exponenciais e as transformações que já estão redefinindo a saúde”. Ela fala sobre o potencial da IA para transformar a prevenção, o papel dos dados contínuos no acompanhamento da saúde, os limites da vigilância, a responsabilidade por decisões apoiadas por algoritmos e a combinação cada vez mais poderosa entre inteligência artificial, genômica e biotecnologia.

Daniel Kraft destaca que vê, nas novas tecnologias, uma oportunidade de ampliar o acesso à saúde (especialmente em regiões historicamente mal atendidas). Mas ele também alerta para os riscos de desigualdade, modelos de IA pouco representativos e sistemas de saúde que priorizem eficiência e volume em detrimento dos resultados e da relação humana.

Nesta entrevista à jornalista Cinthya Leite, colunista de Saúde e Bem-Estar do JC que acompanha o Afya Summit em São Paulo, Daniel Kraft ressalta que a grande transformação passa, sobretudo, por uma mudança de lógica: deixar de pagar pela doença e começar a pagar pela saúde.

JC – Estamos vivendo uma explosão de ferramentas de inteligência artificial (IA) na saúde. O que é realmente transformador e o que ainda é mais hype do que realidade?

DANIEL KRAFT – O que é transformador neste momento é, na verdade, relativamente pouco glamouroso: sistemas de documentação clínica por IA que permitem ao médico olhar para o paciente em vez de para a tela; IA que interpreta um raio-X ou uma imagem de retina em segundos em uma clínica que nunca teve um radiologista; e modelos que identificam aquele único resultado laboratorial anormal escondido em um prontuário de 400 páginas.

O hype é a ideia do “médico de IA” que substitui o médico humano. Ainda não estamos lá, e não tenho certeza de que queremos chegar lá.

O agora é a ampliação das capacidades humanas. O futuro próximo é a IA como um verdadeiro membro da equipe clínica. O próximo passo é um sistema de saúde que aprende continuamente, no qual cada atendimento torna o próximo ainda melhor.

JC – Qual será o impacto mais importante da IA na prática médica nos próximos cinco anos?

DANIEL KRAFT – Se eu tivesse que escolher apenas um, diria prevenção, porque é aí que está o maior potencial de transformação.

Diagnósticos e tratamentos ficarão melhores e mais rápidos, e isso é importante. Mas a verdadeira mudança será passar de uma medicina reativa, de “cuidado quando se está doente”, para uma saúde proativa: uma IA que conecta seu genoma, seus dados de dispositivos vestíveis, seus exames laboratoriais e seu histórico médico, e diz a você e ao seu médico o que fazer antes do infarto, antes do acidente vascular cerebral (AVC), antes de o câncer chegar ao estágio quatro.

Isso não é um sonho para daqui a cinco anos. Partes disso já estão acontecendo em clínicas hoje.

JC – A IA pode tornar os médicos mais humanos? Ou poderia criar ainda mais distância?

DANIEL KRAFT – As duas coisas são possíveis, e a escolha é nossa. Eu me formei em uma época em que passava mais tempo fazendo papelada do que ao lado do paciente, e esse esgotamento é uma realidade em todos os lugares, em São Francisco (EUA) e no Recife.

Uma IA que assume a documentação, as autorizações prévias e a gestão da caixa de entrada nos devolve esse tempo. O risco é que os sistemas de saúde simplesmente preencham o tempo liberado com mais pacientes e mais volume de atendimento. A tecnologia não decide isso. Os líderes decidem.

Minha esperança é que usemos essas ferramentas para recuperar aquilo que fez a maioria de nós escolher a medicina: estar presente, ouvir e tocar.

JC – Quais habilidades os médicos precisarão desenvolver para trabalhar ao lado da IA? E quais habilidades humanas se tornarão mais importantes?

DANIEL KRAFT – Os médicos precisarão aprender a fazer boas perguntas à IA, entender onde ela provavelmente vai errar e saber quando ignorar ou contrariar sua recomendação. É uma espécie de julgamento clínico para um novo tipo de colega. 

Ninguém precisa aprender a programar. O que se tornará mais valioso é justamente aquilo que a IA não faz bem: lidar com a incerteza, perceber a dinâmica de uma família dentro de uma sala, construir confiança e ajudar um paciente a decidir o que realmente importa para ele quando não existe uma única resposta correta. Empatia não é mais uma habilidade soft. É o diferencial.

JC – Estamos preparados para confiar em decisões clínicas tomadas ou apoiadas por algoritmos? Quem é responsável quando uma IA erra?

DANIEL KRAFT – Nós já confiamos em algoritmos mais do que percebemos. Toda máquina de ecocardiograma (ECG) interpreta ritmos cardíacos há décadas, e pilotos voam com o piloto automático. A questão não é se devemos confiar, mas como conquistar essa confiança: validação transparente, testes em populações que realmente se pareçam com os pacientes de Pernambuco, e não apenas com os de Boston (EUA), e monitoramento contínuo depois que a tecnologia é implementada.

A responsabilidade precisa ser compartilhada. O médico que toma uma decisão com base na recomendação continua responsável. O sistema de saúde que implementou a ferramenta é responsável pela forma como ela foi utilizada. E o desenvolvedor é responsável pela maneira como ela foi construída e testada.

O que não podemos aceitar é um mundo em que a culpa seja colocada no algoritmo e nenhum ser humano responda por aquilo que aconteceu. 

JC – Durante muito tempo, a medicina foi muito mais reativa do que preventiva. As novas tecnologias podem finalmente mudar esse modelo?

DANIEL KRAFT – Sim, mas a tecnologia, sozinha, não fará isso. Sabemos há um século que a prevenção funciona. O que mudou é que agora podemos monitorar uma pessoa de forma contínua e a baixo custo, e podemos agir sobre essas informações usando IA. O que falta são incentivos.

A maioria dos sistemas de saúde ainda é remunerada por tratar doenças, e não por preveni-las. O SUS brasileiro, com seu modelo de atenção primária e seus agentes comunitários de saúde, na verdade está mais bem posicionado do que muitos sistemas de países ricos para fazer essa transformação.

As ferramentas estão chegando. A questão é saber se vamos redesenhar o sistema em torno delas.

JC – Até que ponto wearables e dados contínuos podem ajudar a antecipar doenças antes que os sintomas apareçam? 

DANIEL KRAFT – Mais do que a maioria das pessoas imagina. Um smartwatch pode detectar uma fibrilação atrial antes de um AVC. Alterações na frequência cardíaca de repouso e na temperatura corporal podem sinalizar uma infecção dias antes de você perceber que está doente.

Monitores contínuos de glicose estão mostrando a algumas pessoas que elas estão em estado de pré-diabetes anos antes do que um exame de glicemia em jejum conseguiria detectar.

O verdadeiro poder não está em um único sensor, mas na tendência ao longo do tempo: comparar você com a sua própria linha de base, e não com a média de uma população.

Estamos passando de uma fotografia da saúde tirada uma vez por ano para um filme contínuo. A parte difícil é transformar esse filme em algo sobre o qual um médico ocupado possa agir. E é justamente aí que entra a IA.

JC – Existe o risco de estarmos coletando dados demais? Onde está o limite entre monitoramento útil e vigilância?

DANIEL KRAFT – A linha divisória está em quem controla os dados e quem se beneficia deles. Se os meus dados trabalham a meu favor, ajudam meu médico e permanecem sob meu controle, isso é monitoramento. Se eles são enviados para uma seguradora, um empregador ou um anunciante sem o meu consentimento significativo, isso é vigilância, independentemente de quão boas sejam as intenções.

Também precisamos ser honestos: mais dados nem sempre significam melhores resultados. Dados sem contexto geram ansiedade e exames desnecessários. Minha regra prática é: coletem aquilo sobre o qual vocês podem agir e sejam capazes de explicar ao paciente, em uma única frase, por que estão coletando aquela informação.

JC – A combinação de IA, genômica e biotecnologia pode mudar fundamentalmente a forma como descobrimos e desenvolvemos novos tratamentos?

DANIEL KRAFT – Isso já está acontecendo. A IA está projetando proteínas e pequenas moléculas que não existiam há poucos anos. O custo do sequenciamento genético caiu milhões de vezes. Terapias gênicas estão curando doenças que, quando eu era residente, eram sentenças de morte. A verdadeira história está na convergência.

Cada uma dessas tecnologias, isoladamente, representa um avanço incremental. Juntas, elas podem reduzir uma década de desenvolvimento de medicamentos a apenas alguns anos. Minha preocupação é o acesso. Uma cura que custa dois milhões de dólares por paciente não é uma cura para a maior parte do mundo. A próxima fase precisa incluir a possibilidade de tornar essas terapias acessíveis e viáveis em lugares como o Nordeste brasileiro, e não apenas em alguns poucos centros acadêmicos.

JC – Quais tecnologias que hoje parecem futuristas estarão incorporadas à prática clínica de forma rotineira dentro de uma década?

DANIEL KRAFT – Eu apostaria em algumas. Notas clínicas geradas por IA simplesmente passarão a ser a forma como a documentação médica será feita. Ultrassom à beira do leito e diagnósticos baseados em IA, em dispositivos que cabem no bolso, serão padrão na atenção primária e na saúde comunitária. O monitoramento contínuo depois de uma cirurgia ou da alta hospitalar acontecerá em casa, em vez de exigir uma cama no hospital.

Escores de risco poligênico farão parte de exames de rotina. E acredito que vamos olhar para trás e perceber que a ideia de um “gêmeo digital” do paciente, usado para testar virtualmente um tratamento antes de administrá-lo, era muito menos ficção científica do que parece hoje. A maioria dessas tecnologias já existe em algum lugar. A próxima década será sobre distribuição e acesso.

JC – Qual tecnologia mais entusiasma você hoje e qual mais preocupa?

DANIEL KRAFT – O que mais me entusiasma é a convergência da IA generativa com a queda exponencial do custo de sensores e do sequenciamento genético. Pela primeira vez, um agente comunitário de saúde com um celular pode ter uma capacidade diagnóstica que, há uma década, exigiria um especialista e um hospital. Isso representa uma oportunidade de salto tecnológico para regiões que nunca foram bem atendidas pelo modelo tradicional. 

O que mais me preocupa é essa mesma tecnologia sendo utilizada de forma irresponsável: modelos treinados com populações muito restritas e depois implementados globalmente; sistemas de saúde buscando eficiência em vez de resultados; e uma distância cada vez maior entre aqueles que podem pagar por uma saúde potencializada pela tecnologia e aqueles que não podem. A tecnologia é neutra. Nossas escolhas não são.

JC – Se pudesse acelerar apenas uma transformação no sistema de saúde mundial, qual seria?

DANIEL KRAFT – Mudar os incentivos: deixar de pagar pela doença e passar a pagar pela saúde. Quase todo o resto decorre disso. Se um sistema de saúde for recompensado por manter as pessoas saudáveis, ele adotará naturalmente prevenção, monitoramento contínuo, triagem por IA e atendimento domiciliar, porque essas são as ferramentas que permitem alcançar esse objetivo.

Hoje, grande parte do mundo possui uma tecnologia extraordinária direcionada para um modelo de negócio construído para o século passado. Corrigindo os incentivos, a inovação encontrará seu caminho até o paciente.

*A jornalista acompanha o evento a convite da Afya.

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