O preço mais baixo na bomba parecia uma vantagem para quem precisava abastecer. Em alguns postos de combustíveis do Grande Recife, filas se formavam ao longo do dia. Para o motorista, a economia era imediata. O prejuízo, porém, podia aparecer quilômetros depois, quando o carro começava a perder desempenho e o motor dava os primeiros sinais de que havia algo errado.
Por trás desse combustível mais barato, a Polícia Civil de Pernambuco encontrou uma engrenagem que funcionou por pelo menos dois anos e movimentou milhões de reais. Entre 2022 e 2024, cargas de gasolina, álcool e diesel que deveriam percorrer um trajeto regular entre o Complexo Industrial Portuário de Suape, no Cabo de Santo Agostinho, e os postos compradores eram desviadas no caminho.
O que começava como um carregamento legal de combustível ganhava, ao longo da rota, um segundo destino. É o que mostram as mais de 4,4 mil páginas de documentos analisados pelo Jornal do Commercio que fazem parte do processo sigiloso que tramita na Justiça.
A investigação descobriu que caminhoneiros contratados por empresas fornecedoras avisavam, por telefone, integrantes do grupo sobre a saída dos veículos de Suape, os locais de parada, o tipo de combustível transportado e a quantidade que poderia ser retirada. Em vários momentos, os motoristas usavam bloqueadores de sinal de GPS para impedir o rastreamento das empresas — tática que tem sido cada vez mais comum pelo Brasil.
Para que a engrenagem funcionasse sem levantar suspeitas nas distribuidoras ou nos postos receptadores, a organização criminosa dependia de uma engenharia de precisão e da cooptação de agentes internos. A fraude começava antes mesmo de os caminhões deixarem as bases de carregamento.
Investigadores descobriram que funcionários das próprias distribuidoras eram subornados para abastecer os tanques e liberar os veículos sem lacrá-los, entregando os selos plásticos diretamente nas mãos dos motoristas cúmplices. Assim, a carga viajava pronta para ser subtraída ao longo do trajeto.
Em outras ocasiões, os motoristas saíam das bases com lacres duplicados ou sobressalentes na cabine. No caminho, faziam a parada na garagem clandestina para realizar a chamada “sangria” (retirada parcial do produto) e só lacravam o tanque após a conclusão do furto, simulando que o compartimento não havia sido violado.
Nas conversas interceptadas, a polícia flagrou a destreza técnica dos criminosos para extrair o combustível sem deixar vestígios ou romper as amarras originais. Em áudio de janeiro de 2023, um operador gaba-se de ter esvaziado um tanque burlando as travas superiores:
“Tinha um lacre embaixo torto e nem no lacre eu mexi, eu só meti a boca por baixo.”
Essa tática de extração inferior evitava marcas de arrombamento nas bocas de inspeção dos tanques, permitindo que a diferença no volume transportado fosse mascarada até o descarregamento final.
Em pontos previamente combinados, membros do grupo criminoso aguardavam com galões para retirar parte da carga. O combustível era então levado para outros endereços e armazenado de maneira improvisada.
Parte dos produtos, de acordo com a investigação, chegou a ser guardada em residências de investigados. Gasolina, álcool e diesel permaneciam em recipientes inadequados, próximos a pessoas e imóveis, enquanto aguardavam o próximo destino. Além do risco de incêndio e explosão, a forma de armazenamento expunha vizinhos e moradores das proximidades.
O esquema ia além do furto, como indicaram os relatórios da Polícia Civil.
“Os criminosos adulteravam uma quantidade de combustível razoável (adicionando água), sabendo que, ao chegar aos postos, o teste realizado não iria identificar qualquer suspeita de adulteração”, indicou um dos documentos da investigação.
O produto chegava aos postos e voltava ao mercado por um preço capaz de atrair consumidores. A aparente vantagem escondia uma conta que recaía sobre diferentes lados: havia sonegação sistemática de impostos e comercialização de combustível fora das especificações previstas na legislação.
Cada integrante do grupo teria uma função dentro da engrenagem. Para dificultar o monitoramento das conversas, eles recorriam a códigos. Diesel era chamado de “graxa”. Álcool virou “branco”. Gasolina era “fanta”.
A linguagem ajudava a esconder uma atividade que movimentava grandes quantidades de combustível e proporcionava ganhos milionários.
“Não era uma simples subtração oportunista de alguns litros de combustível”, destacou ao JC o promotor de Justiça Rodrigo Altobello. “Havia logística, linguagem própria, armazenamento, revenda, fluxo financeiro e mecanismos destinados a dificultar a fiscalização”, declarou.
Interceptações telefônicas e quebra de sigilo telemático dos investigados ajudaram a robustecer as provas. Diálogos periciados identificaram que parte dos combustíveis desviados era negociada por telefone com pessoas próximas e por valores um pouco mais atrativos.
Confira uma dessas conversas descobertas pela Polícia Civil:
Infográfico produzido com dados e imagens extraídos de inquérito policial – JC
A proteção policial
O esquema milionário de desvio de combustíveis em Pernambuco não se sustentava apenas com caminhoneiros e galões clandestinos. Para garantir que a operação ocorresse sem interrupções diárias pelas rodovias que ligam o Porto de Suape à capital, policiais civis e militares foram cooptados para o esquema.
O relatório do MPPE apontou que agentes públicos teriam atuado ativamente blindando as garagens e postos, por meio de omissões ou fornecendo segurança armada aos comboios e integrantes do grupo.
“De fato, o crime só ocorre porque os policiais militares e civis envolvidos recebem algo em troca (combustível ou dinheiro). Do contrário, como diversos grupamentos policiais trabalham na área, não seria possível que o crime passasse despercebido”, afirmou o relatório policial.
As interceptações telefônicas também reuniram citações a policiais supostamente envolvidos. Em determinado momento da investigação, policiais civis lotados na Delegacia do Cabo de Santo Agostinho foram transferidos para o município de Paulista.
Conversas analisadas pelos investigadores indicaram ainda o repasse periódico de dinheiro a policiais, que poderia estar relacionado à ausência de apuração de denúncias envolvendo furto e adulteração de combustíveis.
Um comissário da Polícia Civil foi apontado como responsável pela segurança de Claudivando José da Silva (Vando), empresário identificado como suposto líder da organização. Relatório de Inteligência Financeira (RIF) registrou cinco depósitos feitos pelo agente para Claudivando, que somaram mais de R$ 414 mil.
Segundo o inquérito, o comissário também orientava integrantes do grupo sobre maneiras de driblar ações policiais. Há ainda suspeitas de envolvimento com o fornecimento de drogas.
Em uma das conversas interceptadas, ele teria cobrado combustível e ameaçado “acabar com tudo” caso suas exigências não fossem atendidas:
“Olha meu patrão, tem que olhar meu lado, entendeu? Se não eu vou embora e acabo com tudo, eu acabo com tudo, acabo com tudo!”
A presença de agentes públicos, segundo os investigadores, ampliava a capacidade de atuação da organização. Não se tratava apenas de retirar combustível de caminhões, mas de manter uma estrutura de proteção capaz de reduzir o risco de fiscalização.
Infográfico produzido com informações do processo judicial – JC
O combustível que virava dinheiro
A investigação indicou que Claudivando era proprietário de pelo menos três postos — em Boa Viagem, Caxangá e Cordeiro, todos localizados na capital pernambucana — e de uma transportadora no Cabo de Santo Agostinho. A empresa também seria utilizada para guardar parte do combustível.
Em um dos postos, o inquérito apontou o uso de um bico de abastecimento paralelo, modificado para não enviar dados à Secretaria da Fazenda (Sefaz). Dessa forma, as vendas de combustível fraudado poderiam ser registradas manualmente no Livro de Movimentação de Combustíveis (LMC), com sonegação de tributos.
O patrimônio atribuído ao empresário também chamou a atenção dos investigadores. O MPPE descreveu uma rotina de luxo, marcada pela aquisição de carros e imóveis de alto valor em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, e na praia de Muro Alto, no Litoral Sul de Pernambuco.
Para os investigadores, porém, o dinheiro não circulava necessariamente em nome do próprio empresário. Havia, segundo o relatório, o uso de terceiros para movimentar recursos, registrar postos e operar máquinas de cartão. Conversas com contadores também indicaram interesse em abrir empresas em nome de outras pessoas.
“Vando conversou diversas vezes com contadores e demonstrou interesse em abrir empresas em nome de terceiros para o funcionamento dos postos de combustíveis. Os analistas identificaram que o posto de combustível situado em Boa Viagem [Zona Sul do Recife] estaria emitindo notas fiscais com CNPJs distintos”, citou o relatório do delegado Ney Luiz Rodrigues, à frente do inquérito.
A estratégia, segundo a investigação, ajudaria a dar aparência de legalidade a recursos que teriam origem nas atividades criminosas.
Combustíveis furtados, armazenados em galões de plástico, eram guardados de maneira irregular e com risco de explosão em imóvel no município do Cabo de Santo Agostinho – PCPE/DIVULGAÇÃO
Ação policial e desdobramentos
A Delegacia de Porto de Galinhas começou a investigar o esquema sofisticado a partir da Operação Mangue Vermelho, deflagrada contra a facção criminosa Trem Bala, especializada no tráfico de drogas e de armas de fogo e que tem como base praias do Litoral Sul de Pernambuco. Investigações já apontaram que membros do grupo têm ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e com o Comando Vermelho (CV).
Na quebra de sigilo telefônico de integrantes investigados, a polícia identificou que alguns deles também estavam envolvidos no furto e desvio dos combustíveis.
A dimensão da estrutura começou a ficar mais clara em fevereiro de 2022, quando mais de cem policiais participaram da primeira fase da Operação Graxa, deflagrada para desarticular a organização especializada nos crimes ligados aos combustíveis. Foram presos 25 suspeitos e cumpridos 21 mandados de busca e apreensão.
Os celulares apreendidos na primeira etapa abriram uma nova frente para os investigadores, porque as mensagens de WhatsApp e conversas revelaram como os integrantes se comunicavam, distribuíam tarefas e tentavam escapar da fiscalização.
Dois anos depois, em julho de 2024, a segunda fase levou ao cumprimento de outros dez mandados de prisão.
“Um dos aspectos mais graves foi justamente a dimensão e a permanência do esquema, inclusive com indícios de participação de agentes públicos que deveriam atuar na repressão dos crimes. Também chamou atenção a elevada rentabilidade da atividade, com movimentações financeiras expressivas e disputas por pontos de atuação”, afirmou Rodrigo Altobello.
O alto lucro do negócio, segundo o MPPE, teria provocado conflitos entre grupos criminosos e teria relação com homicídios registrados na região.
Além de galões de combustíveis, materiais usados no furto e adulteração foram apreendidos e passaram por perícia – PCPE/DIVULGAÇÃO
Processo na Justiça
A investigação chegou à Justiça, mas o caso ainda não teve uma conclusão.
Oito acusados respondem por organização criminosa e lavagem de dinheiro, entre eles Claudivando e um comissário da Polícia Civil. O processo tramita na Vara Criminal da Comarca de Ipojuca. Houve audiências de instrução e julgamento, com forte embate entre acusação e defesas. Agora, está em fase de alegações finais, mas sem data para a sentença judicial.
Os policiais militares identificados na investigação foram posteriormente alvo de outro procedimento, conduzido pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), do MPPE, e pela própria Polícia Militar.
A defesa de Claudivando nega os crimes. Afirma que o empresário sempre conduziu sua atividade empresarial dentro da legalidade e rejeita a acusação de que ele tenha liderado uma organização criminosa.
“Ao longo de sua trajetória, [Vando] sempre pautou sua conduta empresarial pela legalidade, pela transparência e pela geração de emprego e renda em Pernambuco. A imputação que lhe foi dirigida, de supostamente liderar organização criminosa, é negada de forma veemente pela defesa”, disse o advogado Marcos Fonseca, responsável pela defesa do empresário.
“A denúncia apresentada não se sustenta em provas materiais capazes de justificar a criminalização da atividade empresarial de Claudivando, tampouco de associá-lo à estrutura organizada de crimes descrita no inquérito policial”, complementou.
Para o Ministério Público, porém, o impacto da atividade investigada ia além do dinheiro movimentado pelo grupo.
“O comércio ilegal de combustíveis resultou em perdas econômicas significativas para os vendedores legais de combustíveis e para os consumidores, que compraram combustível adulterado sem saber. A operação era bem estabelecida, com transações regulares envolvendo múltiplos receptores”, indicou o promotor.
Altobello reforçou que a pretensão do Ministério Público não é imaginar que uma ou duas operações sejam capazes de erradicar definitivamente determinada modalidade criminosa.
“O papel da persecução penal também possui um importante efeito preventivo geral: demonstrar que essa não é uma atividade impune e que a prática criminosa gera consequências concretas aos seus envolvidos. Se novas condutas estiverem ocorrendo, serão identificadas pelos órgãos de investigação, devidamente apuradas e, havendo elementos suficientes, responsabilizadas”, disse.
A fraude que afeta o mercado legal
Preço mais baixo em determinado posto precisa ser visto como alerta para o motorista – GUGA MATOS/JC IMAGEM
O esquema milionário descoberto pela Polícia Civil de Pernambuco não é um caso isolado.
Na avaliação de Alfredo Pinheiro Ramos, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicombustíveis-PE), o setor enfrenta um cenário de criminalidade complexa e altamente organizada, que extrapolou o simples furto ou a adulteração caseira e se transformou em um esquema estrutural, com impactos econômicos, tributários e operacionais. O fenômeno atinge diversas regiões do país.
“Para o revendedor que trabalha dentro da legalidade, o principal impacto é a concorrência desleal e predatória. O crime não paga impostos, adultera produtos e comercializa combustíveis desviados, conseguindo praticar preços na bomba abaixo do custo real de aquisição nas refinarias. Isso esmaga as margens do comércio regular e retira volume do empresário honesto”, disse, em entrevista ao JC.
Os efeitos, afirma Alfredo, se espalham por toda a cadeia. As distribuidoras perdem mercado para empresas de fachada e têm suas marcas prejudicadas por postos irregulares. As transportadoras, por sua vez, sofrem com custos de gerenciamento de risco, aumento de seguros e contaminação de cargas. Já os postos que atuam dentro das regras enfrentam perda de capital de giro e risco de falência.
“A proliferação dessas fraudes gera uma desconfiança generalizada que mancha a imagem de toda a rede varejista e coloca postos idôneos sob o risco constante de responderem por irregularidades provocadas por terceiros na cadeia de suprimentos. Ao longo de toda a cadeia, os prejuízos são avassaladores”, completou.
Uma das modalidades citadas pelo presidente do sindicato começa justamente no transporte, antes de o combustível chegar à bomba. No setor, segundo ele, a prática é conhecida como “petrobaldes” ou “sangria”.
“Motoristas cooptados retiram entre 20 e 30 litros de combustível de cada compartimento de 5.000 litros do caminhão-tanque ao longo do trajeto saindo de polos como Suape. Essa prática alimenta um mercado clandestino em garagens, borracharias e pontos de apoio não autorizados”, contou.
Para mascarar a diferença no volume transportado, os criminosos exploram as características físicas do combustível.
“O produto é carregado quente na base e sai dilatado. No momento do descarregamento no posto, a medição visual inicial na régua aparenta estar correta por causa da dilatação térmica. No entanto, quando o combustível esfria e contrai no tanque subterrâneo, o revendedor descobre a falta no estoque”, explicou.
Em um posto que movimenta de 100 a 150 mil litros por semana, acrescentou, essa chamada “fraude formiga” pode representar uma perda oculta de centenas de litros por semana, com o prejuízo recaindo integralmente sobre o estabelecimento.
A adulteração também ganhou formas mais sofisticadas. Os criminosos não recorrem apenas à adição de água aos combustíveis: solventes e nafta são utilizados.
“A nafta petroquímica ou de importação é quimicamente parecida com a gasolina, mas não atende aos padrões da ANP. Os fraudadores criam misturas com etanol anidro e solventes para que o produto passe nos testes rápidos de bancada. O produto é adquirido com o benefício fiscal sob a justificativa de uso industrial, mas é desviado diretamente para os postos para ser vendido como gasolina automotiva”, afirmou.
Outra modalidade é a chamada fraude da troca eletrônica de combustíveis, que está entre as práticas mais recentes e lesivas ao consumidor. Ao identificar um veículo flex, o operador aciona um dispositivo oculto na bomba para liberar etanol no tanque, enquanto o painel e o cupom fiscal registram e cobram o valor da gasolina.
Como os motores flex se adaptam ao combustível, o motorista pode não perceber a fraude de imediato. O prejuízo direto, segundo Alfredo, pode chegar a R$ 1,50 a R$ 2 por litro, além da redução no rendimento do veículo.
Para o consumidor, o presidente do Sindicombustíveis-PE aponta alguns sinais de alerta: preços excessivamente abaixo da média da região, ausência de emissão do cupom fiscal e falhas repentinas no motor após o abastecimento.
“Para o revendedor que trabalha dentro da legalidade, o principal impacto é a concorrência desleal e predatória”, reforça Alfredo Pinheiro Ramos, presidente do Sindicombustíveis-PE – GUGA MATOS /ACERVO JC IMAGEM
Há também mecanismos que podem ser acionados pelo próprio motorista.
“Cabe lembrar que o consumidor tem o direito garantido por lei de exigir, na hora, o teste de proveta (para medir o teor de etanol na gasolina) e o teste de densidade”, lembrou.
Em Pernambuco, o foco das autoridades e dos órgãos de fiscalização está concentrado na atuação de grupos organizados voltados para a fraude fiscal estruturada, a receptação de combustível desviado de Suape e a cartelização.
O setor formal e as entidades de classe, segundo Alfredo, colaboram com órgãos como o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de Pernambuco (Cira/PE), o Ministério Público e a Polícia Civil no combate às práticas irregulares e na responsabilização dos envolvidos.
A dimensão econômica do problema ultrapassa as fronteiras do Estado. Segundo dados do Instituto Combustível Legal (ICL) citados por Alfredo, o mercado irregular de combustíveis movimenta e retira do mercado formal entre R$ 23 bilhões e R$ 30 bilhões por ano no Brasil.
“Esse montante que deixa de ser arrecadado faz falta diretamente em investimentos públicos essenciais, como saúde, educação e segurança, enquanto destrói a livre concorrência e o ambiente de negócios no país”, finalizou Alfredo.



